terça-feira, 15 de setembro de 2009

Simplicidade

“Jornalismo é oposição”, ensinou há tempos o grande Millôr Fernandes. “O resto é armazém de secos e molhados”, concluiu com o gênio costumaz.
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Todos querem a paixão visceral. Na prática, a maioria vive os amores de conveniência


Abandonado pela noiva, Leonard tentou o suicídio duas vezes. De volta para a casa dos pais, no bairro do Brooklyn, em New York, ele ajuda o pai no negócio da família e tenta ir adiante com a ajuda das milagrosas pílulas matinais da felicidade. Na nova vida, Leonard conhece duas mulheres: Michelle e Sandra. A primeira é uma vizinha, encontrada ao acaso. Michelle é mulher intensa, filha de família rica que perdeu tudo e é amante do chefe mais velho, casado e com um filho. Dependente de drogas, oscila entre a alegria e a tristeza, a efusão e o retraimento. Com ela, a vida é dúvida, incerteza, a intensidade máxima e a derrota iminente. A segunda é filha de amigos dos pais. Sandra é paciente, convencional, moderada. A união com ela facilitaria os negócios familiares e permitiria um futuro longo e sensato de prosperidade e sentimentos controlados. Em resumo, esse é o roteiro de Amantes, no original Two Lovers, filme dirigido por James Gray. O dilema de Leonard é recorrente, comum, humano. E o filme, ao retratá-lo com pertinácia e competência, torna-se definitivo e necessário. Michelle é a paixão visceral, incontrolável, fogosa, emocional e desejada. Sandra é o amor de conveniências, controlado, tranquilo, sereno, socialmente aceito, justificado na racionalidade. Paixão, Michelle, porém, é o caminho do abismo. Razão, Sandra é o porto seguro. O olhar de fora, distante, pode visualizar com tranquilidade as diferenças. Quem vive o drama, enxerga o que o coração sente. Na vida real, todos anseiam a paixão de Michelle. Ao fim, a maioria entrega-se a amores convencionais, como o de Sandra. É a dureza da realidade desprovida dos sonhos. É a decepção aonde supostamente somos livres. Amantes é um soco no estômago.

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Em memória de Paulo Francis

Ao menos uma geração de brasileiros foi marcada pelas opiniões e pelo estilo de Paulo Francis. Suas colunas, primeiro na Folha de S.Paulo, depois no Estadão, significavam a realização de um ideal de jornalismo distante das demais páginas dos jornais. Francis acreditava na importância do debate de ideias, da exposição de opiniões, da crítica e da análise. Sempre contundente, pessoalíssimo, mordaz e inteligente, o jornalista carioca nascido em setembro de 1930 conseguia conquistar amantes e desafetos. E assim foi desde a juventude. Na realidade brasileira contemporânea, o exagero de Francis faz falta. Era essa capacidade de levar ao extremo uma ideia que permitia que o Brasil pensasse mais, melhor e fora dos padrões sobre sua realidade. Neste setembro de 2009, foi apresentado em Porto Alegre o filme Caro Francis, dirigido por Nelson Hoineff. Não é um documentário biográfico mas um retrato emocional, dirigido a quem conhece o jornalista, já que não se detém a apresentar datas ou a explicar os fatos. Para conhecer melhor Paulo Francis, o ideal é ir a dois de seus livros de memórias: O Afeto que se encerra e Trinta anos esta noite. Além disso, há as obras organizadas por Daniel Piza, com o melhor do pensamento de Francis: Waaal - O Dicionário da Corte e Paulo Francis: Brasil na Cabeça. Mas o filme de Hoineff vale a pena para rever algumas das participações de Francis no Jornal da Globo e no Manhattan Connection. Apesar de ser obra de um amigo, o diretor trata de temas espinhosos, como a frustração de Francis por não ter se tornado um grande romancista, reconhecido, rico e amado, a crítica feroz que fez a Tonia Carrero (e que resultou em duelos físicos com o então marido dela Antonio Maria e com o ator Paulo Autran) e a discussão com o à época ombudsman da Folha, Caio Túlio Costa, que levou Francis a sair do jornal. Amigos relatam o encanto juvenil ao trotskismo (e, apesar de tudo, Francis morreu com um retrato do líder revolucionário russo pendurado no escritório de casa), a conversão madura ao liberalismo, a maneira cuidadosa e afetuosa com que preservava e cuidava das amizades, a paixão pelos gatos, a experiência inovadora na TV e o período como crítico de teatro, no início da carreira. Por fim, discute-se a morte de Francis, em fevereiro de 1997. Por um lado, um suposto descaso médico, que tratou dores no braço como bursite. De outro, a influência de um processo movido por diretores da Petrobras, na Justiça norte-americana, exigindo de Francis US$ 100 milhões por tê-los acusado de manter contas na Suíça. Abalado pelo tamanho da indenização e por não suportar o ambiente dos tribunais, Francis teria sucumbido ao ataque cardíaco. Amigos dizem que o embróglio foi fundamental - desestabilizando-o emocionalmente. Nem Fernando Henrique Cardoso, então Presidente da República, conseguiu demover a sanha de Joel Rennó, o poderosíssimo Presidente da Petrobras dos anos 90. O retrato emocional de Hoineff é uma justa homenagem a Paulo Francis e provoca boas risadas nos assistentes, além de trazer à realidade a falta que faz uma mente livre e independente como a de Francis. Pode-se questionar as opiniões dele, certo descaso com a precisão nas informações e a tonitruância empregada, mas Francis era a expressão de um ideal de jornalismo que no Brasil perdeu a luta para interesses comerciais, patrulhas ideológicas e a ignorância valorizada. Faltam-nos livres-pensadores. Inteligentes, mordazes, generosos e perspicazes como Paulo Francis.

Francis, direto ao ponto:

“O Brasil é o único lugar do mundo em que o comunismo é levado a sério.”

“Um ser que troca de sapato e de roupa porque o costureiro manda não pode votar.”

P.S.: Neste 2009, a Petrobras voltou à baila no mundo dos escândalos com a instalação de CPI no Senado Federal com o nome da estatal. O governo petista, com o apoio da base aliada, enterrou qualquer possibilidade de investigação. Nos bastidores, porém, é marcante o silêncio de PSDB e DEM, que sequer tentam reagir. Aceitam pacificamente o abafa, com pequenas manobras meramente formais e para enganar a torcida. As paredes do Senado dizem que o silêncio de tucanos e demos deve-se à ameaça petista de trazer à boca do palco os desmandos do doutor Joel Rennó no comando da Petrobras. Rennó era homem do DEM no governo tucano de FHC. A canalha, nesse caso, venceu mais uma vez.

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Indignação e o vigor de Roth

Há luz mesmo em obras menores do escritor Philip Roth. É o caso de Indignação, seu último romance lançado no Brasil. Em rápidas 167 páginas conta a história de Marcus, um jovem judeu que para fugir do espectro do pai vai estudar longe de casa. Viviam em Newark e o garoto de 19 anos resolve ir ao Ohio. Lá, enfrenta o obscurantismo do interior americano, a mediocridade generalizada e o peso da religião na definição de destinos. É o início dos anos 50 e os EUA embrenham-se na Guerra da Coreia. Os que não frequentam a Universidade podem ser requisitados a servir as forças do país na disputa e esse é o temor dos jovens. O fundo político dramatiza a realidade que Marcus encontra. Professores sem brilho, estudantes medíocres, individualistas e manipuladores, comunidades conservadoras, estudos pouco atraentes. O mundo universitário norte-americano é alvo constante da pena de Roth. O papel preponderante dos esportes, a controvérsia das fraternidades, as disputas de ego, o conhecimento e a cultura relegados a segundo plano permeiam este Indignação e foram ponto nevrálgico de A Marca Humana. O Marcus que emerge do romance é também uma personalidade conturbada, difícil e que transita entre o individualismo extremado e uma incapacidade dolorosa de compreender a realidade da qual faz parte. Marcus sofre a pressão de ver-se em uma Universidade contagiada pela religião, que obriga seus estudantes a assistir serviços religiosas nas quartas-feiras, confrontando com a crença familiar e com seu ateísmo. Ao mesmo tempo, é incapaz de estabelecer qualquer relação com seus colegas de quarto, indo ao isolamento completo, não integra-se ao mundo esportivo do campus, razão pela qual sofre repreensão do diretor, e esnoba os convites das fraternidades. A juventude, a inexperiência, o rigor consigo mesmo e com o mundo levam Marcus a um abismo. A tragédia se expressa na relação que mantém com Olivia, estudante da Universidade que ele conhece na biblioteca e com qual passa a se encontrar. É um relacionamento conturbado, frágil, dolorido. Olívia é transtornada e tentou o suicídio algumas vezes. Está aí por falta de opção e é conhecida pela sua habilidade no sexo oral. O conservadorismo tacanho, a ameaça da guerra, os desencontros de Marcus e a descrição plúmbea de Roth compõem um cenário desolador e temeroso. Seu romance reúne a descrição de como o despreparo para a vida, a intolerância e as forças sociais podem destruir personalidades em formação - a resistência forma vencedores, mas muitos tombam no caminho. E é também um retrato da intensidade sem controle do destino. Como nos ensina, o banal, o cômico e o fortuito conduzem a resultados desproporcionais, de maneira terrível e incompreensível.

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terça-feira, 8 de setembro de 2009

Antes de qualquer reforma

O Congresso Nacional está prestes a votar uma reforma eleitoral pífia. Assim como as medidas anteriormente apresentadas o eram. Alguns mudanças deveriam preceder qualquer mudança:
1 – Fim do voto obrigatório;
2 – Limitação do número de partidos a cinco;
3 – Restrição da quantidade de mandatos a serem exercidos por qualquer cidadão – no máximo cinco, sendo dois na mesma função.
Simples, esses são pressupostos fundamentais para se pensar no resto, desde o processo eleitoral até a composição dos Legislativos e a forma como são eleitos parlamentares. Numa segunda etapa, não há dúvida que a instituição da lista fechada pode ser uma boa alternativa.

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Política sobre drogas precisa ser repensada

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tem tido a coragem de defender posições contrárias à maneira como o mundo encara as drogas. Impulsionado pelo conservadorismo norte-americano, instituiu-se um programa de combate duro, intransigente e cego a inúmeras drogas consideradas ilícitas, especialmente a maconha e a cocaína. Como resultado, o aumento do consumo e o advento de psicotrópicos sintéticos ou mais destrutivos, como o crack e o ecstasy. Em síntese, FHC preconiza a substituição do enfoque militar e criminal dado ao tema. Há, com certeza, elementos sociais bem mais profundos que a simples tentativa de transgressão que leva ao vício. A legalização do consumo da maconha e o controle de efeitos no uso da cocaína são alternativas apontadas. O tema é espinhoso. Reconhece-se o drama de quem enfrenta um familiar ou conhecido que sucumbe ao crack, por exemplo. A proibição e os tabus sobre a questão, no entanto, colaboram mais para o aumento do consumo e o surgimento de novas drogas, mais poderosas e nocivas, do que para o controle dos usuários. Há registros históricos e nas mais remotas comunidades sobre o uso de substâncias que provocam alterações no estado de consciência. Não é fenômeno recente e nem fruto da modernidade. Talvez o mundo em que vivamos, e os seus valores, induz mais indivíduos ao consumo. Mas é algo muito mais intrínseco à condição humana do que se imagina muitas vezes. Outro erro quando se trata do tema é tomar como parâmetro aquele usuário que termina internado em clínicas ou que comete atos extremos, como agressões a familiares. Esse não é padrão do usuário, na maioria das vezes anônimo. O que fazer, portanto? O debate levantado por FHC é fundamental. Mais que isso, é preciso desmistificar a discussão e os argumentos. A maconha, vicia ou não? Que efeitos provoca? Estimula a violência? Estudos científicos mostram que a dependência provocada pela maconha é inferior à do cigarro. Seus efeitos são calmantes e sobre o apetite, dificilmente ocasionando ações violentas. E a cocaína, do que se trata, realmente? De antidepressivo! Por incrível que pareça. E muitos dizem que é obra do demônio. A grande questão é a quantidade utilizada e a crise de abstinência que provoca (e por essa razão foi abandonada por médicos no século 19, entre eles Sigmund Freud). Apesar disso, não seria mais eficaz apostar no seu uso controlado, combinado com outros medicamentos? Quanto a outras drogas, realmente, a dúvida é grande – e há a hipótese de elas terem surgido em razão da proibição e do combate às drogas ‘mais convencionais’. Tudo isso, de maneira alguma, contraria a existência de políticas de combate ao tráfico de drogas. O que se exige é um debate mais inteligente, menos rancoroso, menos conversador e apegado a crenças religiosas, militares e ideológicas. Estamos falando de um fenômeno social, com raízes culturais e históricas profundas. E parece ser esse o olhar que falta. Ao invés de militares comandarem as políticas sobre combate e uso de drogas ilegais, precisamos de comissões e grupos multidisciplinares, capazes de jogar luz, sabedoria e ponderação ao tema. E construir saídas eficazes.

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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

"Os suspeitos julgam os investigadores e os juízes"

"Nos últimos dias, os envolvidos no caso Detran soltaram o verbo nas emissoras de rádio de Porto Alegre. Ninguém participou de coisa alguma. É tudo injustiça. Todo mundo é inocente. A culpa é do Ministério Público e da juíza Simone Barbizan. Não é por acaso que políticos querem diminuir os poderes legais dos procuradores. Os sofás precisam ser retirados da sala. Só pode ser isso. Por causa da minha costumeira megalomania, no entanto, achei que o desvio dos R$ 44 milhões do Detran poderia ser obra minha. Nem sempre sei o que faço. Verifiquei as minhas contas nos bancos. Não entrou um centavo suspeito. Só saiu. (...) O dinheiro desapareceu, mas os suspeitos, no contra-ataque, julgam os investigadores e os juízes e garantem que estão sendo vítimas de uma grande armação."

Juremir Machado da Silva, Correio do Povo, 1º de setembro de 2009, pg. 4

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terça-feira, 1 de setembro de 2009

As assombrações do relativismo moral


O escritor gaúcho Altair Martins tem vivido neste 2009 bons momentos com seu romance A parede do escuro, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura. É sua estreia no gênero. Altair, ao que se nota, é um grande formalista. Escolhe o cruzamento de narradores de maneira original e competente. Numa situação, ouvem-se os vários envolvidos, com suas peculiaridades e estilos - criando uma espécie de multiplicidade narrativa. Não é algo fácil, e Altair consegue marcar com perfeição diferenças que revelam o poder do escritor. Além disso, opta por linguagem com características que remetem ao lugar social, cultural e intelectual de cada um que fala. É o abandono da língua culta em favor da verossimilhança do que conta. Esses dois aspectos, que dizem sobre a forma do romance, já tornam a leitura recomendada. A parede..., como se disse, é o primeiro romance de Altair, e por isso ainda duro, carente de sinuosidades, malícias, delírios e ideias. A história gira em torno do padeiro Adorno – e a partir dele multiplicam-se personagens relativamente interligados na cidade imaginária de Pedras Brancas. A morte de Adorno, atropelado num final de madrugada de chuva e frio, inicia um caminho no qual o autor trilha e revela o desconforto da banalidade da vida e do relativismo moral – característica talvez acentuada em nosso tempo contemporâneo. O motorista que atropela não socorre a vítima e mantém-se anônimo, marcando o grande questionamento da obra. Na realidade, esse desconforto perpassa todo o romance e a vida de todas as personagens. É a marca mais intensa da história de Altair. O desconforto do leitor, no entanto, é resultado de uma sensação de que algo faltou, de que a provocação da obra é limitada, de que o autor agiu com certa timidez, de que as ideias foram abandonadas em nome da história, da narração. Ao redor de Adorno está seu filho, professor de Matemática que vivencia os dramas da educação em nosso tempo com a inversão absoluta de papéis nas escolas e um relacionamento com uma aluna de 17 anos – e apesar da jovialidade e tentação dela, ele é incapaz de concluir o ato. A menina, por sua vez, já beijou a filha do padeiro Adorno, que sai de casa brigada com o pai – que manteve divergências passadas com o pai do professor. Nesse entrelaçamento, Altair constrói vidas simples e, de certo modo, simplificadas, mas sempre tenebrosamente assombradas. A sensação imaginária do romance é que se passa numa cidadezinha triste, abandonada, cinza e atingida pelos extremos climáticos – ou a chuva torrencial ou o calor infernal. A merecida premiação de Altair não transforma sua obra em perfeição e nem as ressalvas necessárias reduzem sua competência. Afinal, as assombrações do relativismo moral estão aí – a provocar alegria ou tristeza. E muitas dúvidas.

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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O Eterno Feminino

‘Por que razão encontramos com tanta frequência, na clínica psicanalítica, fantasia de prostituição entre as mulheres?’, questiona a psicóloga Maria Rita Kehl na apresentação do ensaio no qual a psicanalista Eliana dos Reis Calligaris discorre sobre pistas e hipóteses para a resposta. Considerada a mais antiga das profissões, a prostituição reveste-se de inúmeras faces: as mulheres que enriquecem com ela, a exploração social de crianças e adolescentes, o submundo de extorsão por trás da vida nas ruas e clubes, a beleza das prostitutas de luxo, o meio de sobrevivência de inúmeras mulheres. Não é disso, porém, de que Eliana trata em Prostituição: O Eterno Feminino, sua dissertação de mestrado na PUC-SP transformada em ensaio. A psicanalista gaúcha concentra-se na análise da prostituição enquanto fantasia e símbolo – domínio de imaginários – e não da realidade vivida em ruas ou bares. Seu interesse partiu exatamente da recorrência de relatos de mulheres na clínica expondo seus desejos e fantasias envolvendo a prostituição. Além disso, a mulher como provocadora de desejos é peça recorrente na publicidade. Eliana vai buscar nas bases da teoria freudiana explicações. A menina estabelece uma relação de amor com o pai, que é, ao fim, uma relação desejante. Esse desejo, porém, nunca pode ser concretizado, sob pena de romper o laço. Na vida adulta, a superação (ou não) desse desejo constituirá a mulher e as suas relações amorosas. Uma das superações, diz Eliana, é a mulher admitir a hipótese de entregar-se a todos (ou a vários) homens como vingança do amor impossibilitado ou como compensação pela frustração fundante. A prostituição simbólica se expressa em cada mulher de uma maneira diferente, única. Do conjunto, tem-se uma retrato variado, complexo, multifacetado. Eliana reúne exemplos em seu ensaio de como a fantasia vem a tona. E joga luz, com texto fácil, simples, objetivo, sobre um dos temas que mais mexem com fantasias e imaginação e que permanece proibido, nas sombras, na maioria das vezes. Como se percebe, a mulher é sempre fruto de sua relação com o pai, um indicativo muito forte de como pode ser possível tentar compreendê-las. Além disso, os mistérios da prostituição são mais profundos do que se conclui de análises superficiais.

O que nos diz Eliana Calligaris:

Entre a sedução e o pudor

A escuta de mulheres na clínica psicanalítica aponta para a ideia de que a escolha feminina para a sedução (e não para o pudor), e sua consequente possibilidade de entregar-se, estejam em uma certa continuidade com a frequente fantasia de prostituição. Essa fantasia surge de forma repetida e em variadas nuances, a ponto de não ser excessivo considerá-la uma das fantasias que organizam a sexualidade feminina.

O pai e um homem qualquer

Quando a menina se depara com o pai, ela encontra sua própria diferença anatômica no olhar que recebe e que pode ser interpretado como desejante. Já aqui está a contradição: se esse olhar não for interpretado (ou interpretável) como desejante, a menina não terá como vir a ser mulher. Mas justamente esse olhar não pode ser propriamente desejante, sob pena de não ser mais o do pai, mas equivalente a de um homem qualquer. Isso pode começar a nos explicar a necessidade do amor para que a entrega se torne possível, mas evidentemente, ao mesmo tempo, isso nos indica que a coexistência entre amor e entrega não é pacífica.

No princípio

(...) a procura do parceiro amoroso e sexual sofre dos efeitos que são inaugurados pela relação com o pai.

Um dilema feminino

A fantasia de prostituição (“sou uma puta”) talvez conduza uma mulher a se libertar da prisão em que a paixão inicial por um homem – o pai – a colocou. Essa paixão impõe uma divisão excludente entre “amor e sexo”: se não me entrego, perco o amor do pai ou, então, se amo o pai, não me entrego para ninguém. Não é só para os homens que se apresenta como necessária a dicotomia entre a puta e a dama. Será que uma mulher consegue entregar seu corpo imaginando-se como a dama do amor cortês? Ou será que, para se entregar, ela precisa despir-se do enamoramento pelo próprio corpo coberto dos vestidos rendados que alegram (ou alegravam) os olhos envaidecidos do pai? Essa divisão forçada sugere uma alternativa alienante entre recusar o gozo feminino ou perder-se nele.

Fantasia e entrega

Prostituere se torna uma fantasia que permanentemente se produz na vida adulta das mulheres, como vimos, pela presença explícita ou recalcada de uma fantasia de prostituição ou mesmo pela atuação – às vezes violenta – da própria entrega.

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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O olhar de Sasha


Confissões de uma Garota de Programa, último filme de Steven Soderbergh, é Sasha Grey (na foto) e seu olhar niilista, fugidio, anulado de sentimentos e de emoções. Em 74 minutos, Sasha vive uma prostituta em Manhattan, convivendo com empresários, investidores e frequentadores de círculos abastados do mundo americano em plena eleição que confrontou Barack Obama e John McCain e na crise que devastou a economia mundial. Sasha é atriz de filmes pornô, considerada uma musa da arte, tendo merecido em 2008 o Best oral sex scene – video, prova de suas habilidades precoces já que completou invejáveis 21 anos em março passado. A prostituta permeia imaginários masculinos e femininos. Afinal, que razões, para além das financeiras, levam uma mulher a entregar-se ao maior número possível de homens? Mas não é disso que trata Soderbergh. O filme mistura relatos de Chelsea, a personagem de Sasha, de seus clientes, e os encontros propriamente ditos (sem, no entanto, ser explícito nas cenas). No geral, poderia ser um filme bem melhor. Arranha, apenas, seus objetivos. Não consegue convencer ao mostrar as razões masculinas para buscar uma garota de programa. Repete alguns clichês fáceis, como quando ela se apaixona por um dos clientes. Não avança ao tentar revelar o mundo de exploração que viceja nos bastidores e é superficial ao tentar penetrar na alma da prostituta. Ao final, então, resta Sasha, personificação da diversidade feminina. Há sempre uma inquietação na beleza e no olhar obliterado de uma mulher que se prostitui.

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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Um grande romance de Cristovão Tezza

O amor é um mistério, uma pretensão e um desafio. É vivido sob formas variadas. Uma delas, entre pais e filhos, aparenta naturalidade, predestinação. O amor de um pai por um filho ou do filho pela mãe é sempre o fim de um determinismo incontornável. Imposto, e talvez por isso gerador de tantas dúvidas, divergências, sofrimentos e, contraditoriamente, de segurança e de permanência. Não é admissível a renúncia a um amor que a natureza (ou Deus) colocou em nossas vidas. Mas esse amor é provação total: exige calma, paciência, dedicação, entendimento, compreensão – uma misteriosa compreensão que aceita a miséria humana, convive com limitações, entrega-se diante da dor, sofre, revolta-se e tem garantias de reciprocidade. É um amor imperfeito. Por isso, talvez, nas relações amorosas entre casais exista tanta sofreguidão pelo perfeito, pelo ideal – e tanta intolerância com as limitações e as impossibilidades do outro. O amor romãntico quer o êxtase e corroi-se na insegurança. O Filho Eterno, romance de Cristovão Tezza consagrado por inúmeros prêmios, é uma viagem ao mundo da relação entre um pai e um filho. Esse filho, porém, nasce com Síndrome de Down. Acompanhamos com dor os sentimentos e as reações do pai ao receber a notícia e a convivência posterior com o filho. É um relato pungente e por vezes cruel do que passa pela cabeça do pai: da rejeição inicial a uma relação intensa, profunda e marcada por uma ligação que tenta superar o preconceito. A construção do amor de pai com filho, nesse caso, contraria tudo o que se diz a respeito do sentimento. Ela é demorada, lenta, desapaixonada, uma mistura de inquietação, inevitabilidade e aceitação. Namora com o ódio, com a rejeição, avizinha-se do sentimento de culpa e encara o destino como um cruel vingador. Em certos momentos, o filho parece castigo. O desamparo dá lugar, com o passar do tempo, a uma tentativa de negação. Sob todas as formas, o pai tenta encontrar maneiras – na medicina e na ciência – de transformar seu filho em um ‘ser normal’. Depois de muito tempo, aceita o destino e desfruta com menor desamparo, com certa alegria, a relação que se solidifica e se impõe. Percebe que sua vida não será a mesma, nem a que sonhou, nem a que todos esperam com a chegada de filhos e precisa lidar com isso. Tezza produz um romance fabuloso a respeito da diferença, do conceito construído de ‘normalidade’ e do impacto da construção social sobre a mente e o comportamento dos indivíduos. O marcante, porém, é perceber como se desenvolve o amor: como já dito, de maneira lenta, construída, cimentado sobre sofrimentos, lidando com dor e inquietação. Filho Eterno conta uma história cruel, já que poucos admitem, no tempo do politicamente correto, como a diferença inquieta, afeta e transforma. E ensina sobre o inevitável da vida - sobre a necessidade de conviver com o que está aí. O destino surpreende, apresenta-se com suas singularidades e impõe a aceitação. Tezza possui texto consistente, fluido, na medida certa. A leitura de Filho Eterno é um dever para a reflexão a respeito dos mistérios do amor e do valor da compreensão generosa. Com ele, pode-se entender que sua pretensão esbarra na simplicidade e o seu desafio é aceitar caminhos que vêm na forma de tempestade. Em certos momentos, o que resta é viver.



O futebol e a maturidade
Em uma de suas belas passagens, Tezza revela o papel do esporte na vida do filho Felipe:

“O futebol, esse nada que preenche o mundo, o pai imagina, logo o futebol, uma instituição de importância quase superior à da ONU e que ao mesmo tempo congrega em sua cartolagem universal algumas das figuras mais corruptas e vorazes do mundo inteiro, um esporte que onde quer que se estabeleça é sinônimo de falcatrua, transformado num negócio gigantesco e tentacular, criador de mitos de areia, a mais poderosa máquina de rodar dinheiro e ocupar o tempo jamais inventada, a derrota final das inquietações do dasein de Heidegger, o triunfo definitivo das massas, o maior circo de todos os tempos (...) um esporte que sequer tem arbitragem minimamente honesta até mesmo por impossibilidade do olhar dos juízes de dar conta do que acontece (...) e no entanto urramos em torno dele, a alma virada do avesso – pois o futebol, essa irresistível coisa nenhuma, passou lentamente a ser para o Felipe uma referência de sua maturidade possível.”

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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

No cotidiano, o sentido da vida


A vida nas grandes cidades esconde emoções e razões que a assepsia da multidão faz com que não sejam percebidas de imediato. Quando essa cidade é Paris, os acontecimentos ganham uma aura de magia e encantamento típica da capital francesa. Sob o título de Paris, o diretor Cédric Klapisch acompanha a história de Pierre, professor de dança à espera de um transplante cardíaco. A personagem é mero pretexto para tratar do cotidiano e das vidas que circulam, brilham e escondem-se na Cidade-Luz. Pierre observa a cidade e seus atores da sacada de casa e as relações desses atores com outros acaba por revelar um conjunto de experiências e vivências que mostra Paris para além dos seus clichês, dos imaginários difundidos e dos prédios, veículos e pontos turísticos. O permanente dá lugar para a fluidez. Esses personagens movem-se em meio a sentimentos, relações, experiências – tudo aquilo que compõe a identidade de qualquer pessoa. Acompanhar essas trajetórias, sob o mito parisiense, é a grande descoberta do filme, mais um representante de uma fase renovada e auspiciosa do cinema francês. Paris é puro prazer – pela identificação com dramas e conquistas, pelo passeio pelas ruas da cidade e pela constatação de que a simplicidade do cotidiano é reveladora e portadora do grande sentido da vida. No elenco, ilumina-se a atriz Mélanie Laurent (foto) no papel de Laetita – uma estudante que mantém relação com o professor e é objeto de desejo de Pierre. Aos 26 anos, Mélanie é de formosura excitante. Nas palavras do professor, a beleza e a juventude reunidas desnorteam. Mélanie brilha.

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terça-feira, 18 de agosto de 2009

Desconstruindo os ares imperiais


Nos últimos anos, intensificou-se a transformação da moda em dimensão essencial, sisuda e circunspecta da vida social, cultural e econômica. Críticos e jornalistas da área escrevem e descrevem o que ocorre na seara com a seriedade dos que tratam do destino da humanidade. As celebridades da moda circulam por aí: grandes editores de revistas são temidos pelo rigor, modelos relatam as exigências e padrões rígidos e incorruptíveis. E os milhões circulam. Evidentemente, a importância da moda se dá por ter se transformado em indústria eficiente, lucrativa e bilionária. O caldo criado a partir do negócio é reflexo do tempo em que vivemos. Recentemente, o filme O Diabo Veste Prada mostrou o temor reverencial provocado pela editora da famosa revista Vogue, considerada 'a Bíblia' dos que circulam pelos jardins fashionistas. O negócio é fortalecido quanto maior seriedade e importância aparenta. E é para isso que trabalham milhares de jornalistas de moda ao redor do mundo. Com a inocência dos que pouco sabem, acreditam participar de um mundo com regras sociais, importância cultural, reconhecimento e relevância. São operários do negócio, simplesmente. O início do filme Brüno, dirigido por Dan Mazer, e protagonizado por Sacha Baron Cohen (na foto), o mesmo de Borat, coloca o mundo da moda em seu devido lugar, tratando pelo ridículo o círculo que se acha importante. Adiante, dedica o mesmo humor escrachado às celebridades americanas. Cohen tem o mérito inegável de retirar a seriedade e a sisudez do mundo, atacando fortemente crenças sociais que sustentam relações e comportamentos. O ridículo, constata-se, é muito mais recorrente e uma marca mais aprazível para certas dimensões da vida. A seriedade é sempre relativa. A importância depende do olhar. O riso é a melhor reação diante da empáfia dos inocentes úteis que desfilam pelas passarelas da vida com ares imperiais.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O futuro exige a compreensão da Internet

Apesar de disseminada na vida de todo mundo, poucos compreenderam a dimensão, o papel e o potencial da Internet, especialmente na vida pública. A rede é uma grande possibilidade de transformação e oxigenação da democracia. Rahaf Harfoush, assessora da campanha de Barack Obama para assuntos de Internet, dá algumas pistas em reportagem do jornal El País, disponível no UOL. Ela publicou um livro em que conta a estratégia de campanha e a relaciona com o mundo corporativo. Quem não compreender a Internet não estará preparado para enfrentar os desafios do futuro.

O que diz Harfoush:

"Nem os governos nem as empresas controlam a mensagem. Na internet, as pessoas têm agora o poder de colocar um vídeo no YouTube ou mandar uma mensagem pelo Twitter para denunciar uma repressão, como aconteceu no Irã, ou criticar um produto."

"As pessoas se guiam pelas opiniões do ambiente que as cerca, de um familiar, de um amigo, de um vizinho, bem mais do que pelas opiniões de um especialista ou de alguém que aparece na televisão. Na realidade, com a internet e as redes sociais, estamos voltando ao boca a boca."

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Marina Silva é alternativa em 2010

A senadora Marina Silva, do Acre, transformou-se na grande surpresa em relação à eleição presidencial de 2010. Antecipadamente transformada em plebiscito entre Dilma Roussef e José Serra, a disputa ganha contornos diferenciados com a possível candidatura de Marina pelo PV, como mostra reportagem de capa da revista Época (e está em todos jornais e revistas do fim de semana, prova de que a imprensa quer alternativas em 2010, assim como parte da sociedade também). Marina representa o sonho e a esperança que um dia foram encarnados por Lula e mais tarde por Heloísa Helena. Com suavidade e convicção, a senadora pode incomodar. Ela é um contraponto ao esgoto que impera na Brasília tropical, das trapaças de Sarney às mentiras de Dilma. Uma das boas análises está no artigo ‘Morena Marina, você se pintou', da jornalista Ruth de Aquino. Um dos parágrafos diz: “O mais forte cabo eleitoral de Marina, neste agosto, se chama José Sarney – e tudo o que ele representa. O país ficou desgostoso com o presidente do Senado, suas mentiras inflamadas na tribuna, seu sorriso bonzinho de avô da República – e com o apoio incondicional de Lula ao maranhense. O nome Marina, sussurrado, ganhou a força da natureza no olho do furacão em Brasília.” Talvez nem saia candidata, provavelmente perca em se lançando, mas a presença de Marina Silva é um alento para se fugir da obviedade de uma disputa eleitoral marcada pelo consenso de que a sacanagem é de todos - ou das instituições e não dos homens que as integram.

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O roteiro da sustentação política da fraude

O jornal Zero Hora publicou na edição de domingo a reportagem 'Um roteiro de medo, barganha e trições', do jornalista Moisés Mendes, reconstituindo parte da história da fraude no Detran gaúcho a partir da ação civil pública interposta pelo Ministério Público Federal (MPF). Não há dúvida que o MPF fez o roteiro da sustentação política do esquema e expõe as entranhas da ação criminosa. Leitura obrigatória, mas que não substitui o acompanhamento didático das 1.238 páginas produzidas pelos procuradores federais e que são um petardo naqueles que crêem na vida pública. É impossível não ser tomado pelo sentimento de distanciamento e pela decepção diante da patifaria institucionalizada e regada a traição, dissimulações, baixeza moral e miséria intelectual. O Rio Grande do Sul deveria refletir – para além de uma disputa entre governistas e oposição.

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Imprensa, poder e desespero

A cobertura pela RBS da crise política que abala o Rio Grande do Sul tem colocado em estado de desespero o conservadorismo gaúcho. Jornalisticamente, o trabalho realizado é correto. Em alguns momentos, foi tímido, contido e convencional. Pouco foi investigado e o que veio à tona é mero resultado de ações da Polícia Federal, do MPF e de depoimentos de envolvidos na história - normalmente ex-alidados do governo Yeda Crusius. Os homens públicos do Rio Grande do Sul não estavam acostumados a serem tratados de forma dura, já que a imprensa foi elemento fundamental na construção do mito da ‘política mais ética do Brasil’. Mesmo assim, comparando-se o tratamento recebido pelos escândalos de Brasília na imprensa nacional verifica-se que o jornalismo gaúcho ainda é tímido e contido. Interesses sempre existem. Homens públicos desmoralizados sempre são um prato cheio para que um jornal conquiste credibilidade frente a seus leitores. E a desmoralização é fruto exclusivo da qualidade de nossos políticos (escolhidos por partidos e não pelo povo, registre-se). Para além da disputa entre governo e oposição, o que ocorre no RS é grave e o bordão de que todos são iguais - uma triste igualdade no banditismo – não justifica a aceitação do estado das coisas. Quadrilhas, pelo que se vê, assaltam o Estado. Talvez nem tudo que apareça seja mero fato jornalístico, mas é sempre preferível que governos e homens públicos recebam tratamento duro que condescendente. Alceu Collares e Olívio Dutra experimentaram o gosto de uma imprensa atenta e ativa. No primeiro caso, com razão - e fruto do deslocamento entre governo e sociedade. No segundo, correto na denúncia de corrupção e exagerado na cobertura das ações de governo. Em todo caso, todo homem público deveria saber que os donos da imprensa negociam com quem está no poder, seja quem for (exemplo maior é a relação amistosa entre Lula e as grandes empresas de comunicação). E, para eles, é sempre bom que mudem com freqüência os donos do poder – por isso, em 2010, apoiarão uma alternativa à Dilma ou até mesmo à Dilma e Serra. A mudança já não causa apreensões. Além desse fator, a manutenção da estabilidade econômica é o único que liga donos da imprensa a donos do poder – neste caso, porque os lucros dos primeiros estão em jogo. Um candidato do governo Lula, assim, só terá o beneplácito da mídia se os adversários ameaçarem romper com a estrutura econômica do país, o que não parece ser o caso. Crer que o poder do passado e cargos importantes garantem apoio midiático eterno é uma doce ilusão. Mais uma a desmoronar nestes tempos gaúchos.

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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O que esperar de um advogado de defesa?

Os advogados da governadora Yeda Crusius e dos oito réus na Ação Civil Pública do Ministério Público Federal (MPF) por improbidade administrativa afirmam tratar-se de peça de ficção, acionada em circo político a partir de interesses escusos. A leitura das mais de 1.200 páginas mostra o contrário. A ação é devastadora. Advogados de defesa não fazem mais que sua obrigação ao desqualificarem a denúncia. E confiam na passividade generalizada. Poucos se dedicarão à leitura putrefata dos diálogos indecorosos presentes na ação. A política já provoca ojeriza e sonolência naturalmente. Exigir o passeio pelas páginas compiladas pelo MPF é uma improbabilidade. Nem mesmo os jornais gaúchos se detiveram a expor os detalhes mais interessantes. Juridicamente, a ação pode conter falhas. Ao final, como é comum no Brasil, os figurões podem se livrar da punição. No entanto, o que o MPF revelou ao Rio Grande do Sul constitui-se em documento antropológico para que se compreenda a política gaúcha. A ação expõe um esquema criminoso no qual figurões partidários mantinham-se em seus cargos a partir da prestação de serviços e, de acordo com o MPF, o pagamento de propina aos respectivos padrinhos políticos. Além disso, os diálogos obtidos pelas autoridades mostram a baixeza moral, a pobreza intelectual e a miséria absoluta de homens que ocupavam importantes postos na política gaúcha. A ação deveria ser leitura obrigatória para todos os que querem conhecer os métodos que vicejam na vida pública gaúcha. É o enterro definitivo de tudo aquilo que se dizia sobre os homens públicos deste Estado.

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De líder ético a chefe da quadrilha

Há dezessete anos, em 1992, José Dirceu comandava na Câmara dos Deputados uma tropa de choque que pretendia passar o Brasil a limpo. Elaboraravam dossiês, denunciavam os desmandos de Fernando Collor, repassavam informações à imprensa, atingiam a jugular da tradição política brasileira. Dez anos depois, em 2002, Dirceu foi o líder da transformação de Lula, suavizando o discurso antes incendiário. Nesse período todo, sempre foi visto como um político de uma esquerda avessa aos radicalismos, adepta do diálogo e contrária à rompimentos traumáticos. Light, digamos assim. Figurou na lista dos melhores parlamentares do país, entre os mais éticos. Durante o 1º Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, em 2001, era procurado e seguido por integrantes de movimentos sociais presentes ao evento. Dirceu comandava o PT rumo ao poder. E o PT era a esperança de muitos, milhões talvez, desde aquele tempo enjoados com as patifarias todas da política brasileira. Com a chegada ao poder, Dirceu transformou-se no todo-poderoso Chefe da Casa Civil, considerado informalmente ‘primeiro-ministro’ de Lula. E lá, arquitetou um esquema de financiamento da base parlamentar no Congresso, no qual deputados recebiam mesadas mensais para apoiar o governo. Descoberta a trampa, José Dirceu caiu. Cassado, perdeu os direitos políticos. Nas sombras, ainda influencia. Nos bastidores do poder, vive muito bem de renda desconhecida. Com a queda, Dirceu passou a atacar o Ministério Público, a Polícia Federal e todas as instituições que tentam desvendar as rapinagens que se avolumam no setor público brasileiro. Além disso, defendeu ações e corruptos de todo o tipo. Dirceu encarna o realismo político ao extremo, uma visão política da realidade brasileira que decepcionou, frustrou e levou ao silêncio militantes e simpatizantes do antigo Partido dos Trabalhadores (PT). No Rio Grande do Sul, a adesão petista a esse realismo custou a Prefeitura de Porto Alegre e o Governo do Estado, em duas eleições seguidas. Em sua última aparição, nesta semana, na Capital gaúcha, José Dirceu defendeu Yeda Crusius, atacou o Ministério Público Federal (MPF) e a imprensa e ironizou Tarso Genro. Forjado no movimento estudantil dos anos 60, treinado em Cuba para funções revolucionárias, ele é um dos que acreditam que o crime se justifica com a tomada do poder. Matar, desviar recursos públicos, roubar bancos, entre outras delinquências, são meros subterfúgios para atingir o comando da nação e, a partir disso, transformá-la. Não é, sabemos, o que democratas devem almejar. O líder ético e que denunciava governos corruptos e coniventes transformou-se no chefe da quadrilha. José Dirceu representa a decadência petista e o prematuro fim do sonho no Brasil.

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sábado, 8 de agosto de 2009

Senhora Governadora: RENUNCIE!

A ação civil por improbidade administrativa contra a governadora do Rio Grande do Sul ainda permanece sob sigilo. Por pouco tempo, registre-se. Em breve, conheceremos os termos contundentes que levaram os procuradores da República a solicitar o afastamento de Yeda Crusius do cargo. Enquanto isso, seus aliados e o conservadorismo gaúcho criticam a forma como o MPF veio a público. Esquecem do conteúdo e concentram-se exclusivamente na forma. Por outro lado, a imprensa divulga diálogos entre Lair Ferst e Marcelo Cavalcante que colocam Yeda na berlinda. Lair Ferst é um dos réus na Operação Rodin, acusado de desviar R$ 44 milhões do Detran gaúcho. Na campanha da governadora, em 2006, foi arrecadador de recursos. Em entrevista à TV da Assembleia Legislativa gaúcha, o tucano Adroaldo Streck, ex-deputado federal, disse que Lair sempre foi ‘operador’ de Yeda e por isso era ligado ao partido. Cavalcante foi chefe de gabinete da governadora quando ela era deputada federal. Mais tarde, assessorou a campanha ao governo e assumiu, com status de Secretário de Estado, a representação gaúcha em Brasília. Em fevereiro de 2009, Marcelo foi encontrado boiando no Lago Paranoá, em Brasília. Lair e Cavalcante são homens de Yeda, responsabilidade exclusiva dela. Nos diálogos, revelam a formação de caixa dois na campanha eleitoral e mostram que a casa da governadora foi comprada por valor além do divulgado. Durante a CPI do Detran veio à tona carta de Lair, entregue a Marcelo e endereçada a Yeda, revelando todo o esquema no Detran. Em outro momento, Flávio Vaz Neto, ex-presidente do órgão, disse que a governadora sabia de tudo o que ocorria por lá. Delson Martini, um dos principais assessores de Yeda, era comunicado e participava das principais decisões. A publicidade da ação do MPF jogará luz sobre uma página torpe da política gaúcha. O Rio Grande do Sul, pelas mãos de seus homens públicos, acaba de integrar-se ao Brasil de Renan Calheiros, Fernando Collor, José Sarney e Lula da Silva. Somos como eles e chega de façanhas! Em fevereiro de 2009, quando o PSOL antecipou os fatos que agora se tornam oficiais, Yeda disse que não responderia a bêbados de porta de bar. Passados seis meses, ela transforma-se na governadora tarja preta. A arrogância, a empáfia e o deslocamento da realidade apresentados por Yeda em entrevistas à TV revelam uma mulher transtornada. Em breve, inicia-se uma CPI na Assembleia. O Rio Grande, enquanto isso, para. Patifarias de todo o tipo tendem a vir à baila, a governabilidade se tornará quimera e a governadora estará no centro de um processo doloroso e duro. Para preservar a pouca dignidade que lhe resta e honrar o Estado que a elegeu, a Yeda Crusius resta alternativa única: renunciar.

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quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Na melancolia do fim, diferenças entre Yeda e Lula

A tarde de quarta-feira, 05 de agosto, provavelmente decretou o final do governo Yeda Crusius. O Ministério Público Federal (MPF) solicitou o afastamento da governadora e impetrou ação civil pública por improbidade administrativa contra Yeda e mais oito aliados e assessores, entre eles o ex-marido, Carlos Crusius, a assessora Walna Meneses, o ex-secretário Delson Martini e o diretor do Banrisul Rubens Bordini. Esses personagens compunham o núcleo da campanha de Yeda ao governo em 2006 e possuem intimidade com a governadora. As quase 1.300 páginas da ação ainda estão sob segredo de justiça, o que motivou duras reações dos governistas, que acusam o MPF de ter montado um ‘circo político’. A revelação das provas e dos argumentos dos procuradores, nos próximos dias, deverá jogar luz sobre o que formou a convicção do MPF para ação incisiva, profunda e devastadora. Não deve ter sido pouca coisa. Fala-se em delação premiada de Lair Ferst, mas esquece-se que outros réus na Operação Rodin podem ter contado o que sabem aos procuradores. A estratégia de ataque ao MPF beira o desespero, pelo fato de que não se sustenta. Desmonta-se com a publicidade da ação. Talvez os procuradores tenham errado ao protocolar o processo depois da entrevista coletiva. Deveriam ter realizado antes e concedido o esclarecimento (pouco esclarecedor pelas limitações legais) depois ou simplesmente informar o fato via nota. E talvez hoje ocorreriam reclamações pela falta de contato com a imprensa. Entre os argumentos dos defensores de Yeda está o fato de que no processo do Mensalão, em 2005, o presidente Lula tenha sido preservado. Vêm nisso e na ação presente uma manipulação petista, algo que fica subentendido, nunca é dito. Os casos são diferentes. Vejamos: qualquer cidadão com dois neurônios tem consciência que Lula sabia de tudo. Por que, então, foi poupado? Tudo começa com o detonador do processo, o ex-deputado Roberto Jefferson, que sempre tratou Lula como um inocente traído. Mais adiante, o PSDB, que poderia liderar um processo de investigação e de impeachment foi constrangido pela descoberta da versão mineira do Mensalão, envolvendo um dos seus líderes. Decidiu preservar Lula com medo de ser tragado pela tempestade. No mundo petista, quem poderia ir além nas denúncias foi devidamente controlado. Delúbio Soares anda de carrão com motorista e é recebido por Lula nos finais de semana; Silvinho Pereira tem vida boa paga por sabe-se quem. No Rio Grande do Sul, tudo é diferente. Desde o início, existem indícios do conhecimento de Yeda sobre o processo no Detran, principalmente expresso por entrevista e e-mail do ex-presidente do Departamento Flávio Vaz Netto. Em entrevista ao programa Conversas Cruzadas, informou que nada foi realizado sem o consentimento de Yeda. Em e-mail publicado por Zero Hora ameaçou revelar fatos dos quais a governadora tinha pleno conhecimento. Além disso, a questão da casa sempre ronda. É um fantasma vivo. Mais além, Lair Ferst, o provável delator do conhecimento de Yeda, próximo dela, foi abandonado e reclamou várias vezes. Lair é autor de carta endereçada à governadora relatando todo o esquema. Teria chegado à primeira-mandatária por meio de Marcelo Cavalcante, ex-chefe de gabinete da governadora quando era deputada federal. Na CPI do Detran, poucos defenderam o governo, resultado da atuação sôfrega da chefe do Executivo no campo político. Culpada ou inocente, Yeda enfrenta uma tempestade que ajudou a construir, nada fez para evitar e errou o caminho na tentativa de contorná-la. Paga o preço. Por características próprias ou debilidade de assessoria. A equipe de Lula verificou o problema, o perigo, e agiu cirurgicamente, com o apoio da sorte. A equipe de Yeda, desastradamente, consegue apenas complicar a situação. Falta-lhe o que sobra a Lula, sem que isso seja necessariamente um elogio. Para a sociedade, porém, o desastre de políticos costuma ser a oportunidade de conhecer as vísceras da vida pública.

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terça-feira, 4 de agosto de 2009

'Strip-tease' do Senado é o realismo à brasileira

É evidente que a crise por que passa o Senado da República nesse momento é abastecida por disputas que dizem respeito a lutas naturais entre oposição e situação ao Governo Federal e às perspectivas para a eleição de 2010. É o preço do presidencialismo brasileiro, um sistema que fortalece o Executivo e faz com que a estrutura de poder em torno dele gire. Apesar da ressalva necessária, o strip-tease, na definição precisa do jornalista Josias de Souza, presenteado pelo Senado aos brasileiros revela a gênese da política brasileira. A refrega envolvendo Renan Calheiros, Fernando Collor de Mello e Pedro Simon é mais um capítulo do show. Corrupção, desfaçatez e miséria moral são atributos que vicejam no mundo. Democracias consolidadas, porém, não permitem que homens públicos, mesmo que eleitos, pendurem-se nas instituições para manter o status quo e impedir as atitudes necessárias. É exatamente o que fazem atualmente Renan Calheiros e José Sarney, sob a luz do Presidente Lula. Sarney prefere desmoronar com o Senado a entregar a Presidência da Casa. A situação política do presidente do Senado é vexatória e mancha para a História suas possíveis ações na transição democrática. Renan e Sarney não poderiam estar no Senado. Suas permanências se dão à custa da credibilidade da instituição, que sangra em benefício de paquidermes da política brasileira. A reação furibunda de Collor ao pronunciamento de Pedro Simon, na sessão plenária de segunda-feira, fez renascer o velho ‘caçador de marajás’, o homem com aquilo roxo. Em entrevista ao Terra Magazine, foi o que constatou Simon. Ao O Globo, o senador gaúcho disse ter sentido medo do olhar do alagoano, lembrando o episódio em que o pai de Collor matou um colega em plenário. No Brasil, os calhordas ainda têm vez. E, de tudo, fica a constatação do jornalista Augusto Nunes: quando Collor diz que é solidário a Sarney, constrói a prova que faltava: "Sabia-se que Sarney não fez pouca coisa. Mas só se soube agora que fez o suficiente para que um Fernando Collor pudesse considerá-lo um igual", conclui com a precisão e o estilo típicos em sua coluna em Veja.com. Isto é Brasil.

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segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O amor sutil e um recado político: a xenofobia virou política de Estado

A diferença é sempre um incômodo. Podemos constatar isso na convivência diária e em situações cotidianas. Quando a diferença possui o peso dos nacionalismos, de qual forma forem, impulsiona-se para a construção de atrocidades múltiplas. Foi isso, de certa forma, um dos gérmens que possibilitaram a Hitler instituir os preceitos fascistas como política de Estado, levando junto milhões de alemães. Evidentemente, o nazismo é fenômeno político e social complexo, estudado e incompreendido com amplitude até hoje. Impossível negar, porém, o papel do nacionalismo étnico, construído sobre supostas diferenças, que ao olhar de seus seguidores são intransponíveis. Neste inverno de 2009, um filme francês joga luz e drama sobre um fenômeno europeu que deveria preocupar, constranger e provocar reações do mundo. Gera apenas notas nos jornais e indignações de pouca repercussão. A chegada de milhares de imigrantes no continente europeu e a reação xenófoba são sabidas há algum tempo. Bem Vindo, o filme do diretor Philippe Lioret, vai além: expõe a estrutura estatal agindo contra esses imigrantes, constrangendo e perseguindo os cidadãos que porventura resolvam dar guarida, apoio e comida ao que consideram invasores ilegais. Dessa forma, a xenofobia deixa de ser uma mera reação cultural, transformando-se em ação deliberada dos Estados, com o respaldo da Justiça e das forças policiais e o apoio de grande parte da população. A questão dos imigrantes na Europa requer um debate amplo sobre as razões dos deslocamentos. O mundo precisa jogar seus olhos para recantos esquecidos, produtores de fugitivos e miseráveis. O filme de Lioret provocou reações do governo francês. É, ao que parece, o primeiro grito a respeito de um fenômeno social que mereceria mais atenção e indignação. Bem Vindo conta a história de Balil, imigrante iraquiano do Curdistão que chega à França depois de caminhar e deslocar-se sob caminhões por 400km com o objetivo de atravessar o Canal da Mancha e chegar a Londres, onde está sua namorada. A trajetória romântica é encoberta pelo retrato cru da vida dos imigrantes ilegais na França, da forma como são tratados pela população e de como o aparato estatal age em repressão e combate aos cidadãos franceses que procuram ajudá-los. Balil inscreve-se em uma escola de natação, com o objetivo de treinar para fazer a nado a trajetória de 10km do Canal da Mancha até a Inglaterra, e acaba conquistando o apoio do professor, Simon. Por trás das ações do instrutor está a tentativa de reconquistar a ex-mulher Marion. Ao saber do esforço de Balil por seu amor, Simon constata que sequer atravessou a rua para não perder Marion, reconhecendo seu acomodamento quanto à vida que passa. É o mesmo acomodamento, relativo, que europeus e cidadãos do mundo desenvolvido têm em relação aos recantos do planeta em guerra e miseráveis. A história de amor é sutil, bela e intensa. O recado político é forte e consistente. Por isso, Bem Vindo é um grande filme.

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