Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Yeda sabia sobre o Detran?

As denúncias de Lair Ferst a respeito da campanha eleitoral e do governo de Yeda Crusius assombram o Palácio Piratini. Não há dúvida. Tanto que, sem responder a essência das acusações, a governadora resolveu jogar a culpa no ministro da Justiça, Tarso Genro. O tabuleiro é intrigante. Há, evidentemente, componentes eleitorais. Os partidos e seus representantes movem-se, ao fim e ao cabo, pelo espectro das urnas. No caso gaúcho, entretanto, mais que isso, está em cena um dos mais desastrados governos da história. Poucas vezes as velhas raposas assistiram a amadorismo tão gritante na construção de apoio e base parlamentar. A eleição de Yeda, registre-se, foi acidente de percurso. Lambuzando-se nos louros da vitória, a governadora esqueceu do fato e passou a governar com empáfia e arrogância que sequer Lula ousa, nos píncaros dos seus 80% de aprovação. Vitória eleitoral é momento. A todo instante, a seguir, o poder cobra o exercício da humildade, da negociação, da troca de favores, da atenção hipócrita que infla o ego dos que são atraídos pelos fluídos dos palácios. É o preço. Yeda achou que não precisava pagá-lo. Com juros e correção, a conta se apresenta todos os dias, dia e noite. Além disso, advoga-se o governo do Rio Grande do Sul representante de um ‘novo jeito’ de governar, administrar e fazer política. Na base de sustentação, porém, preenchendo cargos no Executivo, ocupando o apoio no Legislativo, estão os velhos políticos, dos velhos partidos, com as velhas práticas, desejos e objetivos, movidos pela legitimidade dos votos de velhos eleitores. É engraçado: crendo-se no vaticínio da governadora, os gaúchos elegeram um Executivo moderno e um Legislativo retrógrado. A simples contradição revela a cegueira que atinge Yeda e seus principais conselheiros. Quando vieram à tona as denúncias de Lair Ferst, percebeu-se que os velhos métodos moveram a campanha da então candidata. Yeda quer ser o novo sem libertar-se das velhacas companhias. No início de tudo, a chamada Operação Rodin, que em 2007 jogou a política gaúcha no patamar do resto do Brasil. Numa manhã ensolarada de novembro, afundou a política honesta, proba, para além do bem e do mal, que, segundo seus executores, era praticada no Estado. Desde lá, o roldão de denúncias é extenso, desnudando métodos e ações que constituem a política real dos ‘homens do Nordeste’. Além das secas recorrentes, o Sul parece ter adotado práticas que insistiam vicejavam apenas acima do Mampituba. A arrogância da governadora fez a crise atingir as montanhas e se tornar quase incontrolável, e o fator eleitoral despeja o combustível necessário para que a trajetória prossiga. Para além disso, no entanto, resta a necessidade de Yeda Crusius explicar as acusações que pesam sobre sua campanha e sua atuação no início do governo. A principal delas, nesta modesta opinião, é: afinal, a governadora sabia ou não do que ocorria no Detran? Recebeu ou não a carta de Lair Ferst por intermédio de Marcelo Cavalcante? Do que se tratavam as conversas de Flávio Vaz Neto e Antônio Dorneu Maciel sugerindo consultar a governadora a respeito das orientações de Delson Martini? São questões simples, de resposta fácil e que podem transformar o resto em detalhe. Nenhum jornalista as faz quando conversa com Yeda. Preferem ser ditados pela pauta da entrevistada. Precisam aprender o mínimo sobre entrevista e, quem sabe, assistir ao filme Frost/Nixon. Até agora, a governadora pauta a imprensa, diz o que quer e sequer é questionada sobre o essencial. Yeda sabia do que ocorria no Detran ou não? Foi avisada ou não?

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Terça-feira, 3 de Março de 2009

'Milk' é uma oportunidade perdida

Na tentativa de construir um herói a todo custo, o diretor Gus Van Sant desperdiçou a oportunidade de realizar um filme memorável. Milk, A Voz da Igualdade, conta a história de Harvey Milk, o primeiro gay assumido a ocupar um cargo público nos EUA ao ser eleito para a Cãmara de Supervisores de San Franciso, na Califórinia, em 1977. Van Sant comete dois erros fundamentais: 1 – abusa da afetação gay, deslocando o centro da história para o comportamento dos que viviam na Rua Castro nos anos 70; 2 – simplifica as articulações políticas e sociais que permitiram o sucesso de Milk e a permanência no poder e prefere sua personalidade privada à descrição do homem público. No primeiro caso, o estilo de vida e as ações íntimas das personagens, não há dúvida, formam importante retrato do ambiente que presenciou e protagonizou a ascensão de Milk. Levando a representação dessa maneira de viver ao extremo, termina por encobrir uma realidade mais ampla, dando a impressão de que Milk era somente a voz de homossexuais com maneiras próprias de ser, um líder do gueto. No segundo item, a ascensão de Milk deixa de lado os aspectos sociais da disputa que permitiu a vitória, tornando-a uma luta entre o bem e o mal. Já eleito, Milk torna-se um importante supervisor, com influência sobre o prefeito e os demais integrantes da Câmara. Com certeza, tal projeção não se deu de maneira incólume ou mágica como o filme transmite. A desavença com o supervisor Dan White (novamente prejudicada pela apresentação de uma suposta luta do bem contra o mal, com Milk fazendo o papel de bonzinho) é a amostra mais acabava da simplificação com que o filme trata os aspectos políticos e públicos da história da personagem. A disputa, aliás, foi decisiva para o assassinato de Harvey Milk e do prefeito George Moscone. Não há dúvida que a trajetória de Milk é memorável e marcou um momento significativo na luta empreendida contra os preconceitos que criminalizam e excluem as chamadas ‘minorias’. Sua vitória foi a afirmação da organização de homens e mulheres com dramas comuns e que enxergavam na ação política uma alternativa importante para ocupar espaços e enfrentar os abutres da liberdade. Os excessos e os erros de Van Sant comprometem o filme, obscurecem-no como registro dos feitos de Milk, mas não retiram o lugar histórico que ocupa e pode ajudar a garantir o reconhecimento devido. Com certeza, a chegada ao poder, cinco anos depois de aportar em San Francisco em 1972, a separação do namorado (mais política que afetiva), a vitória e a atuação pública contêm aspectos nebulosos e próprios da ação política que o diretor preferiu encobrir em favor de um retrato leve, sutil e exageradamente afetado de Milk. Tentou, a ferro e fogo, construir um herói. Produziu um filme que merece ser assistindo, mas que fica devendo.

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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

A História acontecendo: o mundo novo deste início de século

O 11 de setembro de 2001 e todas suas implicações fez renascer a importância da política na vida da humanidade, tornando novamente protagonista a relação entre países e a atuação dos governos para o futuro do planeta. Na época, sob o impacto das quedas dos regimes comunistas e da ascensão da economia como palco das grandes decisões e dos destinos mais relevantes, muitos teóricos visualizaram a perda de importância da política, relegada a coadjuvante. As relações econômicas, desde os anos 70, com tempos de crescimento e de bonança, supriram as necessidades dos povos, produzindo uma das mais intensas eras de prosperidade, riqueza e calmaria da vida humana organizada. Os ataques terroristas nos EUA embaralharam o jogo. Agora, a crise do capitalismo de 2008, que afeta um dos pilares do sistema, o sistema financeiro, faz renascer o moribundo Estado, escalado para tentar salvar a economia global da hecatombe. Ainda não sabemos a dimensão do problema nem se as medidas de solução terão resultado. No entanto, a retomada da política e do Estado nessa primeira década do século 21 dão a sensação de um retorno ao passado, apesar de sabermos que um mundo novo está a nascer. Dele, não se conhece as feições. É possível intuir, porém, que as coisas não serão como antes. A História está acontecendo. E isso é sempre fabuloso.

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Olhares sobre a família


Ir ao cinema, assistir a uma bela história, que mescla saudosismo, humor na medida certa e uma reflexão sobre a passagem do tempo e o seu impacto na vida de uma família é o que acontece com o argentino Ninho Vazio, de Daniel Burman. A saída dos filhos de casa muda a rotina e revela as maneiras de um casal já maduro para enfrentar a situação. É um filme sem grandes pretensões e que conquista pela tranquilidade com que trata as fatos. Dizer mais é exagerar nas qualidades ou exaltar limitações. Na mesma categoria, está o italiano Caos Calmo, de Antonio Luigi Grimaldi, que conta a história do pai que precisa cuidar da filha depois da morte prematura da mulher. De maneira metafórica, mostra com beleza e suavidade uma elaboração do luto que foge de todos as convenções, expondo como a dor pode se transformar numa revolução da vida. Na verdade, Caos Calmo revela que a dor faz parte da vida. Sucumbir a ela é renunciar à própria existência. Por mais difícil que seja, lidar com o sofrimento psicológico e moral é uma necessidade para permanecer em pé.

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McEwan e a vida do coração

A atualidade do romance Sábado, de Ian McEwan, é impressionante. A reflexão a que o autor se propõe é sofisticada. Impactado pelas mudanças no mundo no início dos anos 2000, McEwan conta histórias pessoais, mas reflete sobre o lugar da cultura ocidental no mundo. Médico renomado, atingiu o apogeu renunciando àquilo que chama de ‘vida do coração’, entregando-se ao estudo e ao trabalho intenso, dedicando-se à família, construindo uma estrutura representada por uma casa confortável e pelo Mercedes na garagem. O personagem tem consciência de sua ‘obsessão’. Mas ela garantiu a constituição de um estilo de vida e permitiu, sobretudo, que seus filhos desfrutassem todas as benesses da ‘vida do coração’. O filho é músico, a filha vive em Paris, estuda literatura, escreve poesias. O status quo do pai lhes permite a despreocupação com dinheiro, com profissões, com um conquistar um lugar. Degustam o mais alto padrão de conforto, prazer e civilidade que o mundo ocidental e o capitalismo conseguem oferecer. Diante dos atentados terroristas, da iminência de uma guerra no Iraque, os filhos, especialmente a filha, se posicionam contra os ataques dos EUA com o apoio da Grã-Bretanha. Nos meandros dos poderes, essa posição é um aval indireto e precário a homens que preconizam a podridão de um sistema que lhes garante a ‘vida do coração’. O pai, por sua vez, acha que Saddam não merece a solidariedade que os movimentos pacifistas ensejam. Ele enxerga uma ameaça a um modo de vida conquistado a duras penas. Indiretamente, seus filhos acabam defendendo os que apregoam a destruição de um mundo que lhes garante harmonia e satisfação. (a reflexão provocada é de tal forma instigante que permite o desdobramento em múltiplas questões, revelando a complexidade do tema. É evidente que a inquietação dos filhos do médico tem a ver com um mal-estar no mundo que o conforto e a riqueza não eliminam. Mas, qual a alternativa? Por outro lado, as ações de Bush no Iraque e os próprios ataques terroristas engendram intrincadas questões de geo-política que McEwan passa ao largo e que não discutimos aqui. A percepção do escritor, no entanto, é memorável)

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Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

Sábado é um romance que mergulha nos dilemas contemporâneos

Na cena inicial de Sábado, romance de Ian McEwan, a História adentra na vida de Henry Perowne, um bem-sucedido neurocirurgião inglês que, da janela de casa, observa Londres em uma madrugada de fevereiro de 2003. Menos de dois anos antes, em Nova York, o 11 de setembro marcaria o renascimento da política como esfera de importância na vida da humanidade e o início do naufrágio de George W.Bush (apesar de muitos, na época, terem acreditado ser aquela a oportunidade da redenção). Casado, com dois filhos jovens, um sogro poeta e a mãe internada numa clínica, Perowne é reconhecido como um dos mais competentes profissionais da sua área e tem uma vida de classe média alta, sólida e confortável. A história se passa durante 24 horas, em um sábado. Da janela, ele enxerga um avião em chamas rumo ao aeroporto; ao acordar, faz sexo com a mulher; na manhã, joga squash com um colega; antes disso, enfrenta três jovens em um incidente de trânsito com consequências adiante na história; após, compra frutos do mar para a reunião noturna da família, assiste a um show do filho músico, cozinha e vive momentos intensos na noite. Permeando os relatos precisos e envolventes, McEwan reflete sobre os mais variados temas, naquilo que chamou, em entrevista ao jornalista Daniel Piza, de ‘pequenos ensaios’. Um dos textos mais interessantes envolve a discussão com a filha sobre o iminente ataque ao Iraque. Como pano de fundo, Londres assiste a sua maior manifestação popular da história. Mais de 1 milhão de pessoas protesta contra a guerra. A filha de Perowne, poeta que vive em Paris, é contra a invasão. O pai, em dúvida, reflete mais longe. Diante do mundo individual que construiu com abnegação e a renúncia de prazeres, sente que os fatos dos anos anteriores e as ameaças dos grupos radicais muçulmanos são, na verdade, uma condenação fatal a um estilo de vida, construído ao longo do tempo no mundo ocidental. Para Perowne, as atrocidades de Saddam Hussein criam nebulosas sobre os gritos da Europa contra a guerra. Para atacar a insanidade norte-americana, o mundo que quer a paz une-se a um cruel e sanguinário ditador, criado pelos próprios ianques. O dilema é grande. O mérito de McEwan é o de trazer, com sua prosa atraente, a verdade de que os ataques de 11 de setembro foram o sinal de que ‘eles’ querem destruir a ‘nós’ e de que não aceitam a maneira como encaramos o mundo e a vida. Ao entrar no jogo do adversário, o desastrado Bush confundiu o meio-de-campo e garantiu imunidade moral aos terroristas. Os que saem às ruas, apesar do apelo pela paz, estavam aceitando que os inimigos ameaçassem a destruição da sua maneira de viver (criada pelos seus pais, já que a maioria dos protestantes são jovens que desfrutam as benesses da vida estável e o conforto da riqueza capitalista). Enquanto milhões vão às ruas contra Bush e o apoio dado por Tony Blair, Perowne enfrenta um conflito particular, quando o inimigo invade sua casa e ameaça a paz familiar. A reação individual de todos contrasta com o discurso coletivo expresso nas ruas. Apesar do erro unânime da guerra de Bush, é impossível deixar de reconhecer que os ataques terroristas são uma ameaça ao mundo ocidental. Tratá-los como mera reação de explorados é o argumento dócil dos que reagem com violência quando atacados na sua individualidade. McEwan constrói um romance esplêndido no qual contrapõe a ação coletiva com a individual e mostra que o choque desencadeado pelo 11 de setembro é mais complexo do que muitos supõem.

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Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

Para desintoxicar do cinema pronto

O filme alemão A Alegria de Emma tem o efeito de uma espécie de desintoxicação. Ao colidir frontalmente com as lógicas de mercado, o diretor Sven Taddicken produziu uma obra que trata do amor com sutileza e sem cair na pieguice. Há uma opção evidente por personagens feios e rudes, um namoro com o escatológico e a ideia do amor vivido na marginalidade. É a redenção comum a todos, mesmo para seres que experimentam a iminência do final ou o isolamento que parece definitivo. O que poderia ser um romance meloso, indolente e chato, é uma história bem contada, simples, sem grandes arrebatamentos, como é comum na vida real. Por tudo isso, a sensação é de que por alguns momentos nos livramos da mesmice, do sonho irreal e tonificado tão caro a Hollywood e à maioria das produções cinematográficas contemporâneas. Além disso, para destoar do óbvio, A Alegria de Emma não precisa das incompreensíveis, chatas e delirantes histórias que caracterizam o que se chama de cinema alternativo. Emma vive numa fazenda no interior da Alemanha, solitária com seus porcos e prestes a perder o patrimônio por dívidas. Max é um vendedor de carros que descobre um câncer terminal no pâncreas. Em um acidente quase mágico, ele cai na vida dela. E aí se desenvolve o encontro, a sedução, a realização, o desvendamento e a perda do amor. Só isso. Não é um filme gigante, nem brilhante. É diferente. E desintoxica, liberta de uma filmografia repleta de valores, vaidades e éticas para além do humano.

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O sonolento romance de Guel Arraes

O cinema sobre teatro já rendeu bons filmes de Carlos Saura e Manoel de Oliveira. Guel Arraes fez sua tentativa com Romance, frustrando os que esperavam uma obra consistente, autoral e instigante. A história de Ana e Afonso, em atuações de Letícia Sabatella e Wagner Moura, inicia em uma montagem do clássico Tristão e Isolda, de Shakespeare. A parceria no palco invade a vida íntima e o romance real confunde-se com as representações da peça. A atriz é convidada para produções na TV, o que irá abalar o relacionamento e o filme, deslocando-se do mundo do teatro para o da TV. Ao fundo, estão os bastidores nem sempre éticos da fama e das produções televisivas e um embate que é muito forte no Brasil: o idealismo representado pelo teatro contra a entrega aos desígnios do mercado da televisão. O ruim de Romance é que mesmo com apenas 90 minutos em certo momento ele cansa e parece chato, apesar de algumas tiradas divertidas que impedem o sono.

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O tango e seus grandes músicos

Todos os que gostam do tango e sentem o coração com a música argentina devem gastar um tempo e assistir Café dos Maestros, documentário de Miguel Koham e Gustavo Santaolalla. Ao final, o filme registra um encontro de grandes e históricos personagens do tango no Teatro Colón, em Buenos Aires. Antes, porém, mostra a preparação e depoimentos de cada um deles, entre os quais Leopoldo Federico e Lágrima Ríos, com a imponência de sua voz e a força que transmite à música. Lágrima morreu no final de 2006, após a realização do documentário. Café é talvez a última aparição pública de grande parte de seus personagens e remonta à história de uma Buenos Aires que existe atualmente apenas na memória de quem a viveu e nos prédios da cidade que foram o palco de encontros memoráveis. O tango é a música da tristeza, da melancolia e da dor. São sentimentos esplendorosos quando experimentados nas letras e ritmos, já que na vida é impossível a eles renunciar.

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Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

O próximo Presidente do Brasil

Prever resultados eleitorais é sempre um risco. O distanciamento da maioria da população do cotidiano da vida política faz com que as decisões sejam tomadas no último momento, antes disso passando por uma grande volatibilidade, o que explica as variações de tendências apontadas em pesquisas. Como o Brasil está completando 20 anos de eleições presidenciais, no entanto, é possível arriscar algumas apostas. Para 2010, a primeira eleição sem a participação de Lula, configura-se um quadro tendo de um lado Dilma Rousseff, representando o governo e uma aliança de centro-esquerda, e de outro José Serra, pela oposição em coligação de centro-direita (ressaltando-se que essas definições ideológicas, no Brasil atual, não dizem quase nada). Resta a dúvida sobre em que lado estará o PMDB. O quadro, hoje, é francamente favorável a Serra. Ministro da Saúde comemorado, experiente em disputas eleitorais depois de tentar a Presidência contra Lula em 2002, prefeito e governador de São Paulo, fama de realizador, José Serra tem dado sinais de que aprendeu a fazer política, o que era considerado seu grande defeito. Dilma representa o governo e um projeto de continuidade, com as credenciais de comandante das ações da administração petista e a herança social de Lula. No cenário econômico presente, o governo chegará a 2010 fragilizado, tendo que administrar uma grave crise. Nessa situação, tende a se fortalecer uma ideia de mudança, da necessidade de alterar as coisas, o que será representado por Serra. Os estrategistas de Lula apostam que uma condução séria e superior às anteriores da crise pode favorecer Dilma. É uma aposta. Em outra leitura, sabe-se que a democracia brasileira é caracterizada por escolhas personalistas. Partidos e projetos são meros apêndices. Diante disso, novamente Serra sai ganhando. Já é conhecido, tem mais experiência, não precisa ser apresentado. Dilma necessita de um processo longo de reconhecimento. Se o cenário econômico fosse a maravilha que foi até setembro de 2008, as chances da ministra da Casa Civil despontariam. Desemprego em queda vertiginosa, aumento da renda, consumo em alta, viagens, carros e casa própria vitaminariam a ideia de que tudo deveria permanecer como está. É praticamente nulo esse cenário. Haverá crise aguda, mesmo que ela não deteriore os fundamentos econômicos, e as conseqüências afetarão de uma maneira ou outra o bolso do eleitor. Lula aposta em uma condução firme da crise e nos resultados sociais de seu governo para vitaminar Dilma. Será tarefa árdua. A eleição de 2010, também, explicitará o deserto ideológico da política brasileira. Dilma será candidata do PT, da esquerda, com uma plataforma e uma história de governo que contrariam os ideários tradicionais. Já Serra terá como principal aliado o DEM, representação da direita atrasada do país, sendo ele um homem com história de ideias muito próximas da esquerda. Retirando os conceitos de direita e esquerda, poderia se discutir projetos progressistas ou conservadores. Nem isso. O favoritismo de Serra esconde a inexistência de uma projeto para o país. O que propõe o PSDB e seu grupo como alternativa ao que está aí? FHC marcou seu governo pela estabilidade econômica, Lula pelos projetos sociais e pelo crescimento da economia. Esperto, Serra já disse que não será o anti-Lula, mas sim o pós-Lula. O angustiante é que não se sabe o que isso significa. Sem ideias claras sobre um projeto de desenvolvimento, de educação, de saúde e de segurança, é impossível imaginar que o Brasil possa dar um passo à frente. O PSDB e Serra, até o momento, não demonstraram tê-lo. A oposição pífia no Congresso explicita a inexistência de uma visão do Brasil do futuro. Como favoritos a chegar à Presidência da República, tais conceitos já deveriam estar expostos na internet. É o trabalho mais urgente. Caso contrário, a sensação é de que, de qualquer forma, a troca será de seis por meia dúzia. E de um aparelhamento do Estado por outro.

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Domingo, 25 de Janeiro de 2009

"A guitarra de Theo (seu filho) o fere porque também comporta uma repreensão, a lembrança de uma insatisfação reprimida em sua própria vida, do elemento ausente. Essa sensação pode crescer quando termina uma parte do concerto e o neurocirurgião despede-se carinhosamente de Theo e de seus amigos e, ao sair para a calçada, resolve ir à pé para casa refletir. Não existe nada em sua vida que contenha aquela inventividade, aquele estilo de ser livre. A música fala a uma aspiração ou uma frustração que não se manifestou, a sensação de que recusou a si mesmo um caminho livre, a vida do coração celebrada nas canções. Tem de haver mais na vida do que simplesmente salvar vidas. A disciplina e a responsabilidade de uma carreira médica, somadas à constituição de uma família aos vinte e pouco anos -, por cima de boa parte disso, uma cortina de fadiga; ele ainda é jovem o bastante para ansiar pelo imprevisível e pelo irrefreado, e velho o bastante para saber que as chances estão se reduzindo. Estará ele à beira de tornar-se aquele homem, aquele bobo moderno de certa idade, que se apanha parando a toda hora diante das vitrines para olhar saxofones ou motocicletas, ou se sente impelido a arranjar uma amante da idade da sua filha? Ele já comprou um carro caro. A música de Theo traz esse fardo de arrependimento para o coração de seu pai. No fim, isso é o blues."

Ian McEwan, em Sábado.

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Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

A vida, o corpo e o tempo

Apesar das cinco indicações ao Globo de Ouro, O Curioso Caso de Bemjamin Button é um filme apenas bom. Vale a pena assistir, sim, mas está longe de conquistar o título de melhor do ano. A história é original, baseada em um conto, de 1920, do grande escritor Scott Fitzgerald. Benjamin Button nasce em 1918, no final da I Guerra Mundial, em New Orleans, em um parto que vitima sua mãe. O inusitado diante do corriqueiro é a aparência do bebê, envelhecida, comparável a um monstro. O pai, assustado, abandona a criança na porta de uma casa qualquer. Com o passar dos dias, descobre-se que Benjamin nasceu velho, aos 80 anos, e que viverá o caminho inverso dos demais humanos, conhecendo a juventude no galgar da morte. Diante da originalidade da história de Benjamin, o filme conta sua vida, com amores, dissabores, dores, paixões, perdas, vitórias e derrotas que são idênticas a todos homens e mulheres. Por isso, torna-se um tanto cansativo e previsível, sendo seus mais de 160 minutos exagerados. A obra do diretor David Fincher, estrelada por Brad Pitt e Cate Blanchett, enseja, e por isso merece a ida ao cinema, uma interessante discussão a respeito da nossa existência inexorável no corpo, algo que é óbvio na cultura contemporânea, mas nem tanto na história da humanidade (o corpo, na cultura cristã, é o veículo do pecado, em contraste com a alma, receptáculo da divindade sob a forma humana). Na modernidade, o corpo tornou-se central na reflexão do eu (o que não ocorria até então), adquirindo papel fundamental na elaboração da identidade dos indivíduos, categoria que também apresentou-se como novidade. Na segunda metade do século 20, e cada vez mais, até hoje, o corpo tornou-se obsessão. De tudo isso, no entanto, resta o fato inquestionável de que somos também nossos corpos, e eles influenciam e determinam muitas ações e fatos da vida. O Curioso Caso de Benjamin Button nos chama a atenção para a noção de tempo na vida humana e para a ação dele sobre o corpo, determinando e condicionando uma série de possibilidades e experiências. A relação entre corpo e tempo é uma imposição da natureza, sob a qual construímos valores culturais. Modificado o natural, de que maneira reage a cultura? O questionamento não obtém resposta no filme, mas é um interessante prelúdio para tentar entender os mistérios e os fascínios existentes entre os fenômenos naturais e as transformações impostas por nossas experiências.

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Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

"O mundo mudou e precisamos mudar com ele"

O discurso histórico de Barack Obama ao assumir a presidência dos Estados Unidos é marcado pela recorrente retórica utilizada por homens públicos nas democracias. Analistas dizem que não é dos melhores. Integra-se às páginas da História, porém, pelo significado deste 20 de janeiro de 2009. Mais que a chegada do primeiro negro à Casa Branca, mais que todos os sonhos e esperanças expressos nas dezenas de milhares de pessoas que assistiram as comemorações em Washington sob -4º, o dia de hoje marca um momento fundamental na vida americana e, por extensão, de todo o planeta. Esse momento é caracterizado por um desafio resumido por Obama ao dizer que ‘o mundo mudou e devemos mudar com ele’. Resta-nos esperar para assistir a esta adaptação e verificar o tamanho da transformação. A crise global que muitos querem como mera crise financeira é o enfrentamento de uma derrota crucial do capitalismo. Como o sistema a resolverá? A dúvida está posta. Este é o mundo mudado de que falou o presidente norte-americano. Desde que existe, o capitalismo, cuja maior representação atual são os EUA, encontrou saídas para suas crises. Adaptou-se aos novos momentos. A encruzilhada do capitalismo como o conhecemos é o desafio para o qual Obama conclamou todos os americanos, referindo-se à necessidade de ação, de apego aos valores dos pais fundadores e da escolha pelo melhor da história norte-americana. O Presidente reconheceu a crise, deu a esperança da solução, ressaltando o caminho com um refazer da América, resultado de trabalho coletivo. Como pontos práticos positivos da fala, a introdução da necessidade de encontrar fontes alternativas de energia, a reafirmação dos princípios de liberdade, igualdade e oportunidades para todos (não por acaso, o melhor da América), a referência clara a uma crise de confiança do mundo em relação ao país, a tecnologia como meio para a saída da crise e a efetivação de um país mais justo, a consciência de que a educação faliu nos EUA e uma enfática defesa da Constituição e dos direitos do homem, cuja renúncia não se justifica sequer em nome da segurança do país. Neste momento, Obama rompeu com todo o ideário republicano de Bush e reintroduziu a razão no comando: “Quanto a nossa defesa comum, rejeitamos como falsa a opção entre nossa segurança e nossos ideais. Nossos pais fundadores, diante de perigos que mal podemos imaginar, redigiram uma carta para garantir o regime da lei e os direitos do homem, uma carta expandida pelo sangue de gerações. Aqueles ideais ainda iluminam o mundo, e não vamos abandoná-los em nome da conveniência”. Como ponto negativo, faltou dizer de forma mais forte que os EUA hoje dependem do mundo e que a solução passa por ações integradas. Obama é um símbolo, o que se pensará dele em 4 ou 8 anos é uma incógnita, bem como o destino da economia dos EUA e do mundo. No entanto, é rejuvenescedor ouvir o mundo atento e aplaudindo um discurso que fala em liberdade, igualdade e considera inalienáveis os direitos do homem. À beira do abismo, a sensação é de ter dado um passo para trás.

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Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

O fator populacional se torna decisivo na vida do Rio Grande do Sul

Entre 2000 e 2007, 271 dos 496 municípios gaúchos reduziram a população. A constatação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) consta de uma série de reportagens de Zero Hora, publicada de domingo a quarta-feira, sob o título O Rio Grande se Move, refletindo o fenômeno da migração interna e seu impacto no Estado. É uma boa reportagem. Peca apenas pelo excesso de cases – histórias de vida de indivíduos atingidos pelos fenômenos populacionais – e pela ausência de análise mais detalhada sobre o significado das mudanças no futuro do Rio Grande do Sul. De autoria dos jornalistas Itamar Melo e Silvia Lisboa, a reportagem trata de um conjunto de fatos que terá impactos gigantescos sobre a vida do Brasil nos próximos 50 anos, ocorrendo, provavelmente, sempre antes no RS. Algumas constatações:
- O número de filhos por mulher no RS era de 1,7 em 2005. Para repor a população seriam necessários 2. O Estado deverá ser o primeiro do Brasil a apresentar estagnação e redução da população;
- Os 25 maiores municípios detêm 52,8% da população e 59% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado. Isso significa a criação de polos de atração de desenvolvimento e população. São municípios médios que se tornarão (e já são) protagonistas da vida do Estado, em detrimento dos pequenos e micro municípios (dos que mais perderam gente, 90 têm menos de 10 mil habitantes;
- A concentração do desenvolvimento e da população do Estado na Região Metropolitana e na região Nordeste, em detrimento do Sul e Norte (enquanto os maiores municípios da fronteira sul e oeste perderam mais de 32 mil habitantes, os maiores da Serra ganharam 52 mil entre 2000 e 2007);
- A estagnação de Porto Alegre, cuja participação no PIB reduziu de 25,9% para 7,7% entre 1970 e 2008.
Os dados demonstram a necessidade de serem pensadas políticas públicas para os municípios gaúchos, de maneira que os polos de atração populacional possam oferecer serviços públicos adequados à população que chega e que o desenvolvimento tenha alguma racionalidade. É também preciso discutir alternativas para as regiões que perdem população. Antes de tudo, porém, as informações apresentadas na reportagem explicitam a necessidade de estudos mais profundos sobre o impacto da transformação da pirâmide populacional na vida das cidades e do Estado no futuro, avaliando, inclusive, a experiência de outros países. Ao se falar em desenvolvimento, não mais se pode desconsiderar o fator populacional.

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Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

A insuperável sabedoria popular

A professora e jornalista Marcia Benetti mantém o blog Patifaria, muito bom aliás e de leitura recomendada. Com o início do BBB9, ela ocupa seu raro tempo de ócio visitando as páginas de comentários do blog do programa, em busca do saber popular. Compila o melhor e ainda presenteia seus leitores com imapagáveis comentários. Eu me divirto. Abaixo, uma amostra do tamanho da inteligência brasileira, sob análise da Marcia.

"quero dizer que oPedro Bial ,eo melhor no que fas pois deixa encoguinita no ar - tudo me fas feliz nesta frase, ops, felis.
ESTÁ ORRIVEL CADÊ OS GATOS GENTE QUE ISSO!! - os gatos tão no mato. cadê o mato? o fogo queimou. fogo orroroso.
Tem que ser mais bem explorados as enumeras pessoas que se inscrevem na chance de se tornar um bbb - ai, me perdi. faltam enumeras vírgulas, desculpa ae.
TO ANCIOSAAA ;P - uia. toma um remedinho que paça.
quero q comesse logo já não aguento mais de tanta anciedade... - parabéns!!! não colocou trema em aguento!!! nada como comessar o ano usando direitinho o português.
c a globo nao quer colocar pessoas burras é só proucurar q encontra um pobre inteligente - auto-explicativo.
bom dia genti tudo bem fauta poco - bom dia querido passa o arsênico por favor.
Boninho amore mio. Cera que tenho oportunidade ainda? - ih. não cerá desta vez.
sou percistente porrisso continuo aki - isso. continua aí. levou uma cadeirinha?
porduçao gostariaq vcs dese a ultima olhada no meu perfil - nunca a palavra última fez tanto sentido."

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O que o Cpers propõe para melhorar o ensino gaúcho?

A educação no Rio Grande do Sul (e no Brasil) precisa mudar, não há dúvida. O Governo do Estado apresenta um projeto que propõe alterações de fachada, cujo efeito só seria sentido se a realidade fosse outra. São propostas muito usadas em empresas, registre-se. O Sindicato dos professores, por sua vez, é contra todas as alterações. Questionada sobre possíveis alternativas, a presidente do Cpers, Rejane de Oliveira, tergiversa e, em entrevista a Zero Hora (14/01), não consegue apresentar uma única medida prática que melhore o ensino do Estado. Sai pela tangente e fica nos repetidos slogans de um ensino voltado para a formação da cidadania. É difícil, com o que se vê, esperar alguma coisa desse debate.

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Susana Vieira submete sua miséria à execração pública

Uma entrevista da atriz Susana Vieira à repórter Sandra Brasil, publicada pela revista Veja nesta semana, revela toda sua fragilidade e miséria, que poderia ser a de cada um de nós. A fragilidade e a fraqueza humanas precisam ser preservadas, defende o escritor Philip Roth no romance Fantasma Sai de Cena. A miséria moral virou moeda para ascensão, mecanismo mercenário de acúmulo e é a pauta preferida de grande parte da mídia, diante do interesse sedento de ouvintes, leitores, telespectadores e internautas. É do nosso tempo. A degradação machuca e está em todos os lugares. Não precisaria virar tema público preferencial. As próprias vítimas, no entanto, submetem-se ao sistema e revelam o descompasso psicológico com que sobrevivem. Susana Vieira está atordoada e não mais vive no mundo real, criando uma realidade paralela, amortecida pelos mecanismos confortantes do auto-engano. Algo do que diz é verdadeiro: "Sou mais jovem em curiosidade, energia e disposição do que o Marcelo e o Carson (outro ex-marido 19 anos mais jovem) juntos." Com certeza, não é a idade que indica a juventude de uma pessoa. Por outro lado, com sua fragilidade e fraquezas expostas, não mereceria ser julgada. Mas é impossível não ficar perturbado com as declarações da atriz. "... não tenho culpa se sou desejada por jovens", diz ela. Adiante, complementa: "Ele se escondeu atrás da porta do banheiro para me filmar tomando banho de touca na cabeça. Ainda por cima, fazia close das minhas partes íntimas enquanto eu me lavava. Ele ia usar o filme para me chantagear." Há uma contradição lógica entre as duas afirmações. O jovem não a desejava. Usava viagra para transar com a sessentona, despejava seu desejo na loirinha de 24 anos e queria roubar o máximo que pudesse da velha. Os fatos, nus e crus, são esses. Não há amor, paixão, tesão. Há simplesmente um sujeito mau caráter que se aproveita de uma mulher de 66 anos desnorteada e deslocada da realidade. "Envelhecer deve ser horrível, mas, como não envelheço, estou ótima", poderia ser a conclusão dos despropósitos de Susana. Poucas vezes alguém submeteu toda a sua miséria à execração pública dessa forma.

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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

A falência da educação pública no Rio Grande do Sul

A situação envolvendo uma possível demissão da secretária da Educação do Rio Grande do Sul, Mariza Abreu, foi, como definiu a governadora Yeda Crusius, uma grande confusão. Mariza quis, tão somente, chamar a atenção. Conseguiu uma cobertura ridícula do jornal Zero Hora, com título despropositado ("Mariza diz ao povo que fica") e a sua entronização no panteão dos herois sem que tenha feito nada para merecê-lo. Até o momento, o maior mérito de Mariza é ser mentora de uma disputa com o Cpers (do qual já foi dirigente) em que protagonizou-se o corte do salário de professores grevistas. O corte é legal e justo, mas sabendo-se que esses professores recebem R$ 600, a ação adquire contornos vergonhosos e imorais. Além disso, a greve é o único mecanismo que expõe aos gaúchos a falência do ensino público do Estado. Todos somos culpados pela situação, pelo fato de nunca fazermos nada em relação ao assunto. É legal cortar o ponto de professores, mas é imoral calar a única voz que expõe a mazela generalizada. O Cpers, sabem até as árvores, é controlado política e ideologicamente por determinados grupos que possuem, também, interesses partidários, sindicais e eleitorais. Assim como o governo, a governadora e a secretária representam grupos com interesses partidários e eleitorais. Para tentar atacar a direção do sindicato, seu adversário, o governo quer atingir toda a categoria dos professores, desmoralizando os que já chafurdam na pobreza econômica. Vangloriando-se do cargo que ocupa na Câmara dos Deputados, Mariza sugeriu que quem quer abocanhar melhores salários deve realizar concursos difíceis como o que ela prestou. Deveria ter sido demitida no dia seguinte. Não foi e agora apresenta um projeto de reforma no ensino público gaúcho. Tem o apoio irrestrito de parte da mídia e do empresariado, que precisam mostrar o que entendem de educação e que, normalmente, nunca entraram em uma escola pública. ZH disse que Mariza recuou do pedido de demissão diante de uma comoção que quase leva às lágrimas os leitores da reportagem. Não conseguiu citar nominalmente uma figura relevante que tenha apelado pela permanência de Mariza, com exceção do economista Gustavo Ioschpe – que, para os desavisados, vive da fortuna da família e nunca frequentou uma escola pública – e o presidente da Federasul – que costuma apoiar qualquer coisa que reduza o papel do Estado na vida das pessoas. As propostas de Mariza, porém, possuem algum sentido. Mas serão totalmente inócuas se o governo não apresentar projetos claros, exequíveis e com determinação de cumprimento, resolvendo o seguinte: 1 – a infraestrutura da escolas: é impossível melhorar a qualidade da educação com escolas caindo, abandonadas, sem recursos, sem livros, laboratórios, quadras esportivas, material de ensino, mesas e cadeiras, o essencial, enfim, e sobrevivendo com a boa vontade de pais de estudantes que contribuem em associações para sustentar o básico. Até agora, a secretária não disse como isso será resolvido; 2 – investimento em tecnologia: é fundamental que as escolas detenham equipamentos, como laboratórios de ciências e de informática, e material para atividades físicas. No momento, têm quase nada. Nenhum sinal de projetos para o setor; 3 – treinamento e qualificação dos professores: de nada adianta mudar o plano de carreira sem uma política de qualificação dos professores, para uso dos novos métodos e tecnologias no ensino e para o absorção do que pesquisas e teorias pedagógicas têm a contribuir. Professores necessitam ser aperfeiçoados em suas áreas de atuação e terem acesso a informações e conteúdos de toda a ordem, de maneira a que possam proporcionar horizontes aos que não os têm e acompanhar a vida sempre inovadora de crianças e adolescentes. O Estado nada fez e nem apresenta projetos claros viabilizando a formação e a qualificação de mestres; e 4 – política salarial: o começo de tudo. Sem salários decentes, todo o resto é conversa furada. Sem pagar bem, os concursos nunca atrairão os melhores profissionais, os profissionais não terão incentivo para inovar, um plano de carreira será mero formalismo e premiações por desempenho e estratégias de gestão são conversa para a torcida. Os quatro itens acima vêm antes de tudo o que a secretária apresentou como a sua reforma. Isso não quer dizer que as propostas de Mariza sejam desprezíveis, ao contrário, possuem lógica e sentido, mas são a segunda etapa. Sem salário, qualificação, tecnologia e infraestrutura, é conversa fiada falar de plano de carreira, gestão, avaliação e premiação por desempenho. O Rio Grande do Sul precisa realizar esse debate, o que parece ser consensual.

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Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

A Troca: quando o delírio do poder é chamado à razão

As histórias reais levadas ao cinema possuem as limitações de terem ocorrido, de serem exatamente casos reais, e de por isso prenderem os cineastas aos fatos, a aquilo que é. A imaginação, capaz de mergulhar em mundos, personalidades e relatos surpreendentes e contagiantes, perde o espaço. Entra em cena a vida: não menos fascinante, mesmo que por vezes óbvia demais para nossas incontroláveis fantasias. A Troca, um dos últimos filmes do brilhante Clint Eastwood que está estreiando neste verão, tem todos contingenciamentos das obras baseadas em fatos verdadeiros e o brilho intenso da vida real. A história de Christine Collins, ocorrida em Los Angeles em 1928, é uma formidável demonstração da vantagem da democracia e um soco nos que acreditam nos podres poderes. Walter, o filho de Christine, desaparece numa tarde de sábado. A partir desse momento, inicia a peregrinação da mãe em defesa de sua preciosidade. A queixa na polícia só pode ser registrada 24 horas após o sumiço. O pior ainda está por vir, porém: tempos depois, a polícia lhe entrega um menino e tenta convencê-la, contra todas as evidências, tratar-se de Walter. O coração de mãe não sucumbe ao engodo e empreende uma luta feroz pela restituição da verdade, enfrentando uma polícia corrupta e leniente. Ameaça ao estado das coisas, Christine é internada num manicômio repleto de personagens que desafiaram o poder e submetida a torturas desmoralizantes. Graças a pregação do pastor da cidade é solta e inicia-se um processo para restabelecer os fatos, o que só é possível pela ação quase anônima de um policial que exerce sua função com a dignidade que parece perdida. A dor de Christine desperta a atenção do pastor (mostrando como a pluralidade das sociedades contemporâneas é uma vitória), que mobiliza a imprensa e a sociedade contra a injustiça. Em qual sistema poderia ocorrer tal coisa senão em uma democracia, na qual a liberdade é potencial permanente, mesmo que cobre seu preço? Ser livre não é para qualquer um. Somente em um regime democrático, porém, a possibilidade existe. Os que a abraçam costumam transformar as realidades, mesmo pagando o preço caro do enfrentamento. A atuação dos chefes da polícia e do diretor do manicômio, por sua vez, desnuda o estrago que o poder pode causar e a aura putrefata que o engolfa. Os poderes destroem a esperança, a razão, o sentimento e o argumento. Em nome deles, homens e mulheres enfrentam os fatos e aquilo que é. Serão o Judiciário e o Legislativo, pilares da democracia, que ajudarão a por as coisas nos seus lugares. E o desempenho tonitruante e invejável de um advogado, como faz falta em nossos dias, chamará o delírio do poder à razão. Além disso tudo, Eastwood nos presenteia com bela e contida trilha sonora e com paisagens e enquadramentos dignos do melhor cinema. E Angelina Jolie, para arrebatar, está estupenda, com atuação paralela à sua ofuscante beleza.

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Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

Na contramão da sonolência

A máfia é uma marca da Itália. O conhecimento da dimensão de sua ação, no entanto, é restrito por clichês, verdades que se alastram sem dizer muito. Filmes sobre mafiosos são recorrentes e é sempre difícil acrescentar mais um. Gomorra, do diretor Matteo Garrone, vem nesse emaranhado: retrato do impacto da máfia napolitana, a Camorra, no cotidiano de Nápoles, é um filme a mais sobre o tema, e consegue superar o enfado de uma provável repetição. Baseado no livro homônimo do escritor e jornalista Roberto Saviano (persona non grata pelos mafiosos e ameaçado de morte), o filme mergulha no acompanhamento de personagens que têm suas vidas transformadas pelo contato com os braços do crime que são instituição no Sul da Itália. Formado pela soma de situações cotidianas, vividas por personagens desconexas, Gomorra parece não ter um sentido lógico. Ao final, a impressão é de que faltou desvendar os mistérios da organização, seus braços institucionalizados e o que isso tem a ver com o poder político do mais subdesenvolvido dos países ricos da Europa. A intenção de Garrone talvez tenha sido essa mesma: mostrar como a ação e a presença da máfia se transformou em algo cotidiano, a governar vidas, a dominar destinos, sem qualquer surpresa, indignação ou reação contrária. Ela faz parte da vida. A Itália pobre e subdesenvolvida aparece tristemente com muita câmera na mão, imagens turvas e isoladas e uma certa inovação formal – o que garante ao filme ares de documentário. A sensação, final, é de que Gomorra prometia mais e ofereceu pouco. Tratando-se de um filme sobre a máfia, no entanto, oferece bastante no que poderia ser o ponto fraco: o olhar sobre destinos ordinários que são tocados pelo crime sem a culpa da subversão. Tráfico de drogas, trabalho escravo, produção industrial desleal, manipulação de lixo contaminada: as faces perversas da Camorra perdem espaço para o efeito de sua ação na vida das pessoas. O jeito complacente dos personagens, a ausência de qualquer reação, é um retrato de pessoas que se entregaram. E o poder da máfia vem disso. Mesmo com a ação da Justiça contra ela, o fato de ter se alastrado pelas paragens sulistas a faz permanente e, no princípio, invencível. Saviano é a voz que contraria uma ordem sonolenta. A sobrevivência dele é a garantia de que as idéias ainda podem alguma coisa. Por isso, Gomorra vale mais pelo simbolismo que pelo filme em si.

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Os mundos da palavra contida

O escritor italiano Alessandro Baricco realiza no livro Seda uma elegia da palavra. Texto curto, frases exatas, o romance é de leitura rápida, corrida e emocionante. Conta uma história de amor sem falar do amor, fala de sentimentos sem precisar revelá-los ou explicá-los, impõe-se ao leitor sem a necessidade de abusar do discurso, sem se valer de artimanhas. Baricco prova como é possível dizer muito com pouco. No tempo das verborragias, é uma exceção grata e bem-vinda. O lirismo perpassa suas páginas e com ele adentramos no mundo sagrado de nossas fantasias e emoções. O escritor, na sua contenção, provoca o leitor. Tudo o que interpretarmos do romance é mais o reflexo da alma de quem lê do que o pensamento e a construção do escritor. Seda é como o caminho que descreve: misterioso e irrecusável. Cruzá-lo envolve determinação, mistério, surpresa, êxtase e decepção. Numa história curta, num caso de amor, um resumo lírico sobre a passagem humana na Terra. As páginas de Seda despertam no leitor as melhores lembranças e ardores sobre a vida. E sem a necessidade de suspeitos finais felizes.

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Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

Número de vereadores e a necessidade de ultrapassar uma coisa do passado

O Senado Federal está prestes a aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que aumenta o número de vereadores no Brasil (na verdade, é quase uma retomada ao patamar de 2004, quando o TSE cortou vagas). Originalmente, o texto previa também a redução de recursos para os legislativos municipais. Ao fim, passará apenas a primeira parte. No sistema federativo brasileiro, os municípios possuem status de unidade da federação, reproduzindo a organização de Estados e da União. É um dos poucos países do mundo no qual o legislador municipal é remunerado com proventos. O debate, no entanto, está eivado de preconceitos. O problema não é aumentar o número de legisladores. Isso é bom, já que permite representação mais significativa nas Câmaras Municipais. A falência dos legislativos municipais no Brasil tem a ver com outras questões, mais profundas: 1 – discussão a respeito da conveniência dos municípios serem unidades federativas (a maioria poderia ser unidade administrativa, autônoma, de diferentes tipos e em quantidade muito maior do que temos hoje, a exemplo do modelo norte-americano, com atribuições determinadas); 2 – a maior abrangência dos Conselhos Municipais, capazes de representar a sociedade de forma mais plural e qualificada, o que escancara a despreparo de vereadores e a falta de estrutura de Câmaras Municipais; 3 – a lógica perversa da política como fim, na qual o vereador é mero cabo eleitoral de prefeitos e deputados, exercendo sua função a reboque do interesse dos líderes; 4 – a remuneração dos parlamentares, que transforma o legislativo municipal em balcão de favores e de simpatias pouco republicanas (os municípios poderiam ter grandes conselhos, com participação massiva (reunindo os integrantes de todos os conselhos setoriais), e pagamento de valor simbólico pela presença nas assembléias) e, 5 – o esgotamento da democracia representativa (na era da internet e em núcleos em que é possível o contato direto entre eleito e eleitor acreditar que a representação parlamentar significa algo é uma ilusão. Municípios devem se valer, cada vez mais, dos mecanismos da democracia direta, utilizando os instrumentos tecnológicos disponíveis. Quem iniciar esse processo, com certeza, deixará seu nome na história, já que é algo que pode mudar o caminho das democracias). Vereadores representam muito pouco e, por isso, seu papel é questionado e pouco valorizado. Então, o debate que se apresenta é supérfluo. Deveríamos estar discutindo o modelo federativo, os limites da representação e alternativas viáveis, tanto em termos de democracia representativa quanto, principalmente, direta. O número de vereadores é debate acessório. Quanto mais, melhor. Desde que os gastos sejam limitados. O erro do TSE, em 2004, ao cortar as vagas que agora serão recompostas, foi o de não prever corte de gastos. O modelo ideal é cortar gastos (sem inviabilizar as Câmaras) e aumentar o número de parlamentares. Mas o futuro passa por rever todo o sistema, que faliu há tempos. Câmara de Vereadores, como reprodução de Assembléias Legislativas e do Congresso Nacional, é coisa velha e ultrapassada.

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Retrato de um Brasil de contrastes

Há 52 dias, Caroline Piveta da Motta, 23 anos, está presa por ter pichado uma parede da Bienal Internacional de São Paulo. A infração da jovem é óbvia. A justificativa para a manutenção da prisão é a de que a família não conseguiu reunir documentos que permitam a soltura dela. No Brasil, a prisão de Caroline é um deboche. Cadeia deve ser punição extrema, por princípio. Além disso, a quantidade de poderosos que conseguem escapar dela desmoraliza tudo. Cobre-se multa de Caroline, imponha-se trabalho social, coisa assim. Em confronto com a rápida libertação de Daniel Dantas, pelo ligeiro Gilmar Mendes, a manutenção de Caroline atrás das grades é vergonhosa.

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