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Ao menos uma geração de brasileiros foi marcada pelas opiniões e pelo estilo de Paulo Francis. Suas colunas, primeiro na Folha de S.Paulo, depois no Estadão, significavam a realização de um ideal de jornalismo distante das demais páginas dos jornais. Francis acreditava na importância do debate de ideias, da exposição de opiniões, da crítica e da análise. Sempre contundente, pessoalíssimo, mordaz e inteligente, o jornalista carioca nascido em setembro de 1930 conseguia conquistar amantes e desafetos. E assim foi desde a juventude. Na realidade brasileira contemporânea, o exagero de Francis faz falta. Era essa capacidade de levar ao extremo uma ideia que permitia que o Brasil pensasse mais, melhor e fora dos padrões sobre sua realidade. Neste setembro de 2009, foi apresentado em Porto Alegre o filme Caro Francis, dirigido por Nelson Hoineff. Não é um documentário biográfico mas um retrato emocional, dirigido a quem conhece o jornalista, já que não se detém a apresentar datas ou a explicar os fatos. Para conhecer melhor Paulo Francis, o ideal é ir a dois de seus livros de memórias: O Afeto que se encerra e Trinta anos esta noite. Além disso, há as obras organizadas por Daniel Piza, com o melhor do pensamento de Francis: Waaal - O Dicionário da Corte e Paulo Francis: Brasil na Cabeça. Mas o filme de Hoineff vale a pena para rever algumas das participações de Francis no Jornal da Globo e no Manhattan Connection. Apesar de ser obra de um amigo, o diretor trata de temas espinhosos, como a frustração de Francis por não ter se tornado um grande romancista, reconhecido, rico e amado, a crítica feroz que fez a Tonia Carrero (e que resultou em duelos físicos com o então marido dela Antonio Maria e com o ator Paulo Autran) e a discussão com o à época ombudsman da Folha, Caio Túlio Costa, que levou Francis a sair do jornal. Amigos relatam o encanto juvenil ao trotskismo (e, apesar de tudo, Francis morreu com um retrato do líder revolucionário russo pendurado no escritório de casa), a conversão madura ao liberalismo, a maneira cuidadosa e afetuosa com que preservava e cuidava das amizades, a paixão pelos gatos, a experiência inovadora na TV e o período como crítico de teatro, no início da carreira. Por fim, discute-se a morte de Francis, em fevereiro de 1997. Por um lado, um suposto descaso médico, que tratou dores no braço como bursite. De outro, a influência de um processo movido por diretores da Petrobras, na Justiça norte-americana, exigindo de Francis US$ 100 milhões por tê-los acusado de manter contas na Suíça. Abalado pelo tamanho da indenização e por não suportar o ambiente dos tribunais, Francis teria sucumbido ao ataque cardíaco. Amigos dizem que o embróglio foi fundamental - desestabilizando-o emocionalmente. Nem Fernando Henrique Cardoso, então Presidente da República, conseguiu demover a sanha de Joel Rennó, o poderosíssimo Presidente da Petrobras dos anos 90. O retrato emocional de Hoineff é uma justa homenagem a Paulo Francis e provoca boas risadas nos assistentes, além de trazer à realidade a falta que faz uma mente livre e independente como a de Francis. Pode-se questionar as opiniões dele, certo descaso com a precisão nas informações e a tonitruância empregada, mas Francis era a expressão de um ideal de jornalismo que no Brasil perdeu a luta para interesses comerciais, patrulhas ideológicas e a ignorância valorizada. Faltam-nos livres-pensadores. Inteligentes, mordazes, generosos e perspicazes como Paulo Francis.Marcadores: cinema: ideias
Há luz mesmo em obras menores do escritor Philip Roth. É o caso de Indignação, seu último romance lançado no Brasil. Em rápidas 167 páginas conta a história de Marcus, um jovem judeu que para fugir do espectro do pai vai estudar longe de casa. Viviam em Newark e o garoto de 19 anos resolve ir ao Ohio. Lá, enfrenta o obscurantismo do interior americano, a mediocridade generalizada e o peso da religião na definição de destinos. É o início dos anos 50 e os EUA embrenham-se na Guerra da Coreia. Os que não frequentam a Universidade podem ser requisitados a servir as forças do país na disputa e esse é o temor dos jovens. O fundo político dramatiza a realidade que Marcus encontra. Professores sem brilho, estudantes medíocres, individualistas e manipuladores, comunidades conservadoras, estudos pouco atraentes. O mundo universitário norte-americano é alvo constante da pena de Roth. O papel preponderante dos esportes, a controvérsia das fraternidades, as disputas de ego, o conhecimento e a cultura relegados a segundo plano permeiam este Indignação e foram ponto nevrálgico de A Marca Humana. O Marcus que emerge do romance é também uma personalidade conturbada, difícil e que transita entre o individualismo extremado e uma incapacidade dolorosa de compreender a realidade da qual faz parte. Marcus sofre a pressão de ver-se em uma Universidade contagiada pela religião, que obriga seus estudantes a assistir serviços religiosas nas quartas-feiras, confrontando com a crença familiar e com seu ateísmo. Ao mesmo tempo, é incapaz de estabelecer qualquer relação com seus colegas de quarto, indo ao isolamento completo, não integra-se ao mundo esportivo do campus, razão pela qual sofre repreensão do diretor, e esnoba os convites das fraternidades. A juventude, a inexperiência, o rigor consigo mesmo e com o mundo levam Marcus a um abismo. A tragédia se expressa na relação que mantém com Olivia, estudante da Universidade que ele conhece na biblioteca e com qual passa a se encontrar. É um relacionamento conturbado, frágil, dolorido. Olívia é transtornada e tentou o suicídio algumas vezes. Está aí por falta de opção e é conhecida pela sua habilidade no sexo oral. O conservadorismo tacanho, a ameaça da guerra, os desencontros de Marcus e a descrição plúmbea de Roth compõem um cenário desolador e temeroso. Seu romance reúne a descrição de como o despreparo para a vida, a intolerância e as forças sociais podem destruir personalidades em formação - a resistência forma vencedores, mas muitos tombam no caminho. E é também um retrato da intensidade sem controle do destino. Como nos ensina, o banal, o cômico e o fortuito conduzem a resultados desproporcionais, de maneira terrível e incompreensível.Marcadores: livros
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